Reflexões / Matutações

A maturidade cristã

20/10/2017

Num mundo materializado como o atual, gerador de desencantos, nada mais necessário do que uma reflexão sobre a maturidade cristã. Maturidade é um estado de perfeição, excelência, firmeza, precisão, exatidão, auto-controle. O cristão que, na linguagem de São Paulo, deve atingir o estado do homem perfeito até que se alcance a medida da plena estatura de Cristo (Ef 4,13) vive em função de um ideal, de uma busca contínua de sua própria realização. O efeito disto é o que aponta o mesmo Apóstolo aos Efésios: “Já não seremos crianças sacudidas para cá e para lá, e levados ao sabor de todo o vento de doutrina, à mercê dos enredos dos homens e da astúcia que ardilosamente inocula o erro”.

Esse é então feliz em Deus e foge sempre do negativo, da infantilidade, dos lamentos e não se deixa levar pela depressão. Adquire aquele equilíbrio, apesar da consciência de suas limitações. Dá-se o contentamento com o que se tem e o que não se tem numa imperturbabilidade, numa serenidade contínua. Isto é fruto de uma adaptação inteligente aos planos divinos, aos outros e a si mesmo. Resulta daí a plena efetivação humana que se manifesta na doação ao Ser Supremo e ao próximo. O fio condutor é a vivência total na presença daquele no qual “existimos, movemos e somos” (Atos 17,28).

Chega-se deste modo a se ter identidade, pois se passa a se conhecer melhor e a se situar no mundo de uma maneira coerente e cheia de discernimento. Brota aquela intimidade com o Ser Supremo, fonte de todo júbilo. Abrolha aquela comunhão com o outro, repleta de simpatia e, mais ainda, de empatia. Tudo isto precisa ser alimentado pela Palavra de Deus que se acha na Bíblia, na prece contínua e na participação eucarística. Quem assim procede ao invés de complicar as coisas simples, simplifica o que é complicado. Não tropeça em si mesmo e não agride quem está em seu derredor, respeitando a alteridade alheia. Este respeito deve se traduzir ora num silêncio que não perturbe o vizinho, ora numa palavra oportuna que ilumina, guia, consola, dirige. No grego está uma palavra que sintetiza tudo isto: metanóia, ou seja, conversão perseverante que outra coisa não é senão a mudança persistente de mentalidade.

Tal atitude procede do desenvolvimento intencional das virtudes cardeais. Cardo, em latim, quer dizer dobradiça, eixo em torno do qual gira alguma coisa. No caso da dobradiça, gira a porta, no caso do eixo da terra, giram os quatro pontos cardeais. No caso das virtudes, em torno das quatro virtudes cardeais, giram as outras virtudes. O discípulo de Cristo precisa, de fato, cultivar a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. Então praticará também as virtudes morais retratando em si a figura do Mestre divino.

Donde a estabilidade de ânimo, na capacidade de tomar decisões ponderadas e na maneira correta de julgar os acontecimentos e os homens. Este deve ser o magno objetivo de quem quer curtir a vida em plenitude. O importante é que tal objetivo não tenha uma formulação vazia ou uma a planificação genérica de algumas atividades para consegui-lo. O essencial é o "querer", o esforçar-se para persegui-lo, afim de se atingir a maturidade ideal. Se não existe o querer, o objetivo deixa de existir automaticamente e se entra no terreno dos sonhos, das veleidades..

Em síntese, tudo depende da intensidade com a qual se vive cada momento e a retidão dos motivos ao vivê-lo. Deste modo, quem atinge a maturidade domina as paixões e dominar as paixões representa possuir a continência e possuir a continência significa ser feliz. Infeliz, de fato, é aquele que passa sua vida a fazer o mal, ou a não fazer nada ou a nunca fazer o que deveria fazer. Para que isto não ocorra cumpre atingir a maturidade cristã

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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