Reflexões / Matutações

O farisaísmo é “um caminho segundo a carne”

18/10/2017

São Paulo fala de duas formas de orientar a vida: viver segundo a carne ou segundo o Espírito – Rm 8,1. O Apóstolo usa a expressão “estar em Cristo” que significa, em termos práticos, ser convertido a Cristo e ao seu Evangelho, ter comunhão com Ele no Espírito, e estar integrado no Corpo de Cristo, que é a Igreja.

 Estava matutando: há uma tendência de se pensar que “andar segundo a carne” é a forma de falar do homem sem religião ou moralmente condenável, mas o conceito de “homem carnal” não implica forçosamente um julgamento moral. Muitos “cristãos batizados e que rezam o Credo”, vivem segundo a carne. Vivem segundo os princípios da vida secular sem a perspectiva de eternidade. A sua adesão à fé é apenas um sentimento devocional, permanece no nível emocional e não muda valores e coração...

 Viver segundo a carne é, essencialmente, viver exclusivamente segundo os padrões humanos, estabelecer os valores “politicamente corretos”, estabelecer valores e interesses que não consideram a eternidade, é viver de maneira autônoma em relação a Deus.

 Essa orientação da vida é tipificada no comportamento dos fariseus do Novo Testamento e chega até aos nossos dias. “O fariseu não é um acidente histórico, mas é o homem que subordina toda a sua vida ao seu conhecimento do bem e do mal e é um juiz tão severo de si próprio como do seu próximo...” – D. Bonhoeffer.

 A razão por que Jesus tanto combateu o farisaísmo está no carácter profundamente nocivo, que anula de forma sutil a vida no Espírito, a vida na graça de Deus. O farisaísmo é “um caminho segundo a carne”, mas que dá a ilusão ser “vida segundo o Espírito” e é isso que o torna perigoso.

 Corremos o risco de nos tornamos obcecados com os detalhes e perdermos a visão do todo e do “por que do serviço a Deus”. O perigo é permitir que a busca do “perfeito” ocupe todo o tempo até o ponto em que o ideal torna-se obscuro. Quando se perde o sentido do empenho, a liturgia transforma-se em cerimonialismo, as leis em legalismo, as tradições em tradicionalismo, a vida moral em moralismo. O ambiente comunitário torna-se asfixiante e os meios mais importantes que os fins

 O fim de tudo o que se faz na Igreja deve ser para levar as pessoas à experiência do amor de Deus! As organizações, os sistemas, os planos pastorais, o ambiente comunitário, a liturgia, enfim, tudo deve favorecer o amor a Deus e aos irmãos. As comunidades devem ser lugar de águas para os que têm sede de Deus; lugar de pão para os que estão com fome espiritual; lugar de misericórdia para os que carregam culpas; lugar de afetos para os que se sentem órfãos; lugar de cuidado para os que se sentem ovelhas necessitando de pastor. Só se alcança esse objetivo amando a Deus e só assim fugimos do farisaísmo e nos tornamos expressão do seu amor.

 Uma maneira de discernir e fugir do farisaísmo que nos ronda seria perguntar: onde queremos chegar com as nossas práticas? Qual o sentido de fazermos o que fazemos? O que buscamos com nosso empenho? Qual é o ideal que perseguimos? Quais são nossas reais motivações diárias?

 As respostas podem nos ajudar se formos sinceros...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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