Reflexões / Matutações

Não estão nos faltando “comunidades cristãs”?

13/10/2017

O livro de Virginie Riva, autora francesa, que trata da conversão de onze jovens aos Islão. (Converties, ed. SEUIL, 2015), me impressionou. São longas entrevistas nas quais jovens convertidos – quase todos com cultura universitária, entre os 25 e os 35 anos, de famílias agnósticas ou católicas – contam que o primeiro ímpeto para se aproximarem do islão veio do encontro com colegas de escola muçulmanos.

 O tema recorrente nas entrevistas é a alegria sentida por serem convidados, mesmo se ainda não eram crentes, para participar de atividades onde experimentaram uma atmosfera afetuosa e acolhedora e a proximidade de pessoas. Experiências que estes jovens nunca tinham feito, apesar de serem cristãs. A atração foi em primeiro lugar estimulada pelo calor afetivo, por um acolhimento. Depois encontraram um lugar, pessoas capazes de reconhecer as suas exigências espirituais, de dar respostas acerca do sentido da vida e da vida eterna após a morte. O livro destaca que os “os convertidos dizem: encontrei duas coisas no islão, uma comunidade e uma espiritualidade”.

 Fico matutando... Por que não encontraram estas respostas, que são exigências humanas, em nossas igrejas? Muitos cristãos – batizados que receberam comunhão e crisma – nunca encontraram essas “comunidade e espiritualidade” em nosso meio! Mesmo tratando-se de pessoas evidentemente predispostas a uma busca espiritual, a um caminho rumo a Deus.

 São fatos que fazem refletir muito: nós católicos, somos tão incapazes de testemunhar amor ao próximo, de responder às exigências de busca espiritual, de organizar a nossa vida na visão da eternidade, não só limitados à realização individual?

 O Papa Francisco repete insistentemente que a Igreja cresce por atração. O convite a procurar uma comunidade calorosa e acolhedora, a testemunhar com humildade, mas com tenacidade a nossa fé é-nos dirigido com frequência pelo Papa: restituir calor e vida a uma religião que a muitos, em número sempre crescente, parece esclerosada, incapaz de responder às exigências humanas. Este confronto com as conversões ao islão confirma como as suas palavras são urgentes e necessárias.

 Fico matutando... Não estão nos faltando “comunidades cristãs” que respondam a busca e o desejo do povo cristão, de um modo geral? Comunidades simples, acessíveis, que permitam partilhar a vida que se leva e a fé que se tem.

 Vivemos hoje a realidade de uma Igreja anônima, onde a maioria dos cristãos não tem a possibilidade de viver uma experiência comunitária que permita partilhar a fé e a vida. Os cristãos, institivamente, anseiam por “vida em comunidade”, se não no começo de sua trajetória eclesial, pelo menos na medida em que avançam. Quando descobrem ou redescobrem a fé evangélica e a pertença eclesial, sentem muito claramente que a missa ou o culto dominical não basta para alimentar sua fé. Sentem necessidade de falar e partilhar com outras pessoas o que crêem e o que fazem... Precisam experimentar a atmosfera de acolhimento e solidariedade... O amor fraterno não pode ser uma “teoria”...

 Precisamos refletir seriamente sobre a experiência de comunidade para estes cristãos comuns que o Espírito convoca para viver em Igreja.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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