Reflexões / Matutações

Já se vão 50 anos

12/09/2017

Numa destas “viagens missionárias” encontrei um líder (servo) um pouco desanimado, saudoso “daqueles tempos” e reclamando dos “tempos atuais”. O “servo” participa da RCC há um bom tempo e sua partilha traz uma preocupação que tenho encontrado com certa frequência. Em fevereiro a Renovação Carismática Católica, em todo mundo, celebrou seus 50 anos!

 Matutando, recordei um texto de Reinaldo Beserra, “velho mano velho”, “Confissões ministeriais” de 2003, janeiro, que usei “larga e livremente”, pois que reflete o que sinto e penso. Não sou “tão antigo” quanto o  Renaldo, mas “antigo o suficiente”...

 Partimos do princípio de que a Igreja é carismática por natureza, e iniciou sua atividade missionária no mundo após o derramamento do Espírito em Pentecostes, quando Deus “cumpriu a promessa” – Atos 1 e 2, após a ascensão de Jesus. Pela primeira vez, o Espírito Santo  foi dados aos que creem (pois “o Espírito não havia ainda sido dado porque Jesus não havia ainda sido glorificado” - Jo 7,37.

 Pentecostes marca também o início “da nova missão do Espírito para consumar a obra do Filho, pois será ele quem levará à realização plena a nova era da história da salvação” – S. João Paulo II - DeV 22. “Entrando incessantemente na história do mundo através do coração do homem”, o Espírito irrompe, por vezes, de forma vigorosa no tecido eclesial, suscitando expressões que colocam em destaque o Sua ação e a sua missão de nos revelar Jesus e sua obra de salvação.

 A Renovação Carismática é um desses momentos, um desses sinais da missão do Espírito. S. João Paulo II em 1978: “Estou convencido de que este movimento é um verdadeiro e importante componente na renovação total da Igreja, nesta renovação espiritual da Igreja”. Reinaldo matuta: “Sem fundador, sem planejamento humano, sem estratégias, e sem mesmo rumos e pretensões: assim surgia, em fevereiro de 1967, essa graça de renovação no Espírito Santo, vocacionada na vida da Igreja especialmente a partir do Concílio Vaticano II, e que tem sido significativamente usada por Deus como uma estratégia para se ‘redescobrir, na Igreja e no mundo, a presença e o operar da pessoa do Espírito Santo’ - TMA, 45”.

 Mas “já se vão 50 anos”! É previsível que, à medida que nos distanciamos – no tempo e no espaço – de uma experiência, corrermos o risco de um arrefecimento, de um empobrecimento daquilo que estava presente na origem dessa experiência. “Se não consideramos diligentemente a essência da graça um dia recebida, o natural – pela própria natureza humana – é que a rotina mine o nosso entusiasmo, e o cansaço, o desgaste nos relacionamentos, a ausência daquela novidade primeira, deem lugar – diante das dificuldades –, ao desânimo e à acomodação” – Reinaldo.

 Assim, começamos a nos contentar em viver “na periferia” da graça que nos foi dada, valorizando excessivamente as coisas acidentais, secundárias, em detrimento da essência da experiência original. Algumas vezes, “os líderes não atentam para os reais objetivos da Renovação Carismática, e parecem considerar-se apenas ‘beneficiários’ da graça, e não, também, corresponsáveis por seu estabelecimento e difusão. E percebemos muitas expressões ditas ‘carismáticas’ totalmente alheias à real identidade do Movimento (...) privando o povo de uma autêntica experiência com Deus, do estabelecimento de um novo relacionamento com Ele, da recepção e exercício dos carismas que o Espírito nos quer conceder” - Reinaldo.

 Apesar de nossas boas intenções, esforços e sofrimentos, neste Ano Jubilar o Senhor nos disse: “Mastenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste. Arrepende-te, e retorna às tuas primeiras obras” - Apc 2,3.

 Deus está falando pelos fatos que estamos envoltos em um processo de feridas abertas, de dores, de decepções, de desvios, de barreiras, de crises... mas tempo de redirecionar e voltar ao primeiro amor, de um novo despertar... de coragem profética! Coragem profética de deixarmos que coloquem “o dedo em nossas feridas, e desinstalem-nos de nosso comodismo espiritual, de nossa dependência à carismaticidade meramente emotiva, de nossas justificativas quanto às divisões dentro da RCC”... – Reinaldo.

 Este é o tempo. A visão é: voltar ao primeiro amor, retornar às primeiras obras, e colocar mais de Deus em todas as coisas; menos de nós. Renunciar aos nossos planos pessoais, abrindo-nos com docilidade às modificações que o Espírito queira fazer em nossos projetos. Morrer, para brotar...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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