Reflexões / Matutações

A fé

29/08/2017

A fé é ato humano, realizado dentro da liberdade humana, porém não se pode dizer “eu creio” sem que o objeto crido se manifeste ao crente, ou seja, nós temos fé porque Deus mesmo se revelou e mostrou a nós sua vontade. Não se tem fé somente baseado no desejo humano de crer de num ser superior a quem se dá o nome de Deus, mas a fé é Graça de Deus. Isso não significa que a fé contraria a razão e a liberdade humanas, porém “na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina”- CIC 155. Portanto, “crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da Graça” – S. Tomás de Aquino.

 “A fé cristã é o dom do encontro que torna os homens livres para escutar a Palavra da graça, pronunciada por Deus em Jesus Cristo, de maneira tal que eles se atêm às promessas a aos mandamentos dessa Palavra, apesar de tudo de uma vez por todas, exclusiva e totalmente” – Karl Barth.

 A fé é “Dom” “Graça”, ou seja, é a capacidade dada por Deus para que os homens creiam nele. Podemos ver isso no episódio em que Pedro professa sua fé em Jesus, afirmando que ele é “o Cristo, o Filho do Deus vivo”- Mt 16,17. Jesus diz a Pedro que ele é “Bem-aventurado”, pois não foi a carne nem o sangue que o revelou esta verdade, ou seja, não foi pelo esforço de Pedro que ele chegou a essa conclusão, nem porque recebeu de outrem esse ensinamento, mas foi o Pai que revelou a ele.

 Ao se tratar de fé, não podemos nivelá-la às outras formas de conhecimento, pois ela não parte de nenhuma constatação empírica, ou seja, não se prova a fé como se prova que a Terra gira em torno do sol, nem tampouco se pode afirmar que se chegou à fé a partir de um esforço intelectual. A sabedoria da fé consiste em abandonar-se confiantemente a Deus, apoiando-se em sua Palavra, como palavra para mim.

 “Não se crê ‘por causa de’ ou ‘baseado em’, mas se é despertado para a fé a despeito de tudo” – JB Libanio. Sabemos que a fé é um ato pessoal e que ninguém poderá professá-la por mim, pois é uma resposta livre do homem à Revelação de Deus. Cada um professa  pessoalmente sua fé, porém, não se pode entender a fé como um ato isolado, solitário. Assim, ninguém crê sozinho, até porque, a fé não brota do nada, mas da escuta da Palavra proclamada, ou seja, alguém anunciou para mim a Palavra e eu então livremente professo a fé nesta Palavra. Nesse sentido, ninguém da a fé a si mesmo, mas depende de alguém que creu e que anunciou – Rm 10,14.

 “Eu creio: esta é a fé da Igreja, professada pessoalmente por todo crente, principalmente pelo batismo. ‘Nós cremos’: esta é a fé da Igreja confessada pelos bispos em Concílio ou, mais comumente, pela assembleia litúrgica dos crentes. ‘Eu creio’ é também a Igreja, nossa mãe, que responde a Deus com sua fé e que nos ensina a dizer: ‘eu creio’, ‘nós cremos’” – CIC.

 A fé é Dom de Deus transmitido pela Igreja, que guarda e anuncia a Palavra revelada. Desta maneira, nós professamos a fé em Igreja, ou seja, a Igreja é a comunidade dos que professam a fé, uma “única fé, recebida de um só Senhor, transmitida por um único batismo, enraizada na convicção de que todos os homens têm um só Deus e Pai”- CIC.

 A fé é Dom de Deu se resposta do homem, porém essa resposta humana é possível a partir de um ato de confiança naquele em que se crê. Crer é ter confiança, e este é o ato pelo qual a pessoa se abandona à fidelidade de um outro, aceitando as consequências dessa entrega. Este outro a quem se pode esperar a fidelidade só pode ser Deus, pois não existe fidelidade fora dele. A fé é a confiança que permite que nos mantenhamos nele, nas suas promessas e nos seus mandamentos. Manter-se em Deus é abandonar-se a essa certeza e vivê-la: Deus está aqui para mim. Tal é a promessa que Deus nos faz: “eu estou aqui para ti”.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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