Reflexões / Matutações

O sofrimento

28/03/2017

Encontrei um texto no meio de meus papeis. Impresso antigo já meio amarelado e sem identificação. Talvez fosse um bilhete a alguém da comunidade ou da família... Lembrança  vaga...

 Não precisamos chamar o sofrimento ou ir ao seu encontro, ou mesmo convidá-lo para “dar a cara”... Ele vem por conta própria, espontaneamente, sem ser solicitado, porque é inseparável de nosso existir, de nossa peregrinação, do nosso ser vulnerável e mortal.

 A grande maioria dos cristãos foge das cruzes, não gosta de padecer. No primeiro sinal de dor, já ingere um comprimido, o primeiro “analgésico” ao alcance da mão. Comprimido de diversos tamanhos, cores e formatos: desculpas, fugas, alienações, autoajuda... As mais diversas drogas: do consumismo aos estupefacientes...

 Ah! Se pudéssemos, num passe de mágica, desvencilhar-nos de tudo o que dói e machuca, eu seria o primeiro a fazê-lo. A cruz assusta, o medo do risco e do desconhecido nos intimida, nos deixa inseguros, porque somos frágeis, sensíveis, de carne e osso. Somos gente!

 Existem pessoas que fabricam cruzes para si mesmas... Preocupam-se excessivamente “com o que comer e beber”, “com o que vestir” – Mt 6,25. Criam situações insalubres, provocam dissabores, pesadelos, angústias supérfluas, conflitos desnecessários, tomam decisões precipitadas e imprudentes, sem rezar e discernir a vontade de Deus... Depois se queixam, desoladas, inconsoláveis: "O que eu fiz de errado, meu Deus, para ser castigado assim”?

 Ao morrer crucificado, no alto do Calvário, o Mestre não explicou o insondável mistério da dor, da morte, das agonias terrenas. Mas conferiu-lhe luminoso sentido pascal. Quem vive na fé caminha à luz da esperança na ressurreição final, na glória do céu. Prefiro a tempestade com Jesus à bonança sem ele.

 A maneira como encaramos as contrariedades, os espinhos do cotidiano, as exigências do Evangelho, revelam se somos “amigos” de Deus ou “semi-pagãos”, cristão consciente ou superficial. Bom ou mau aluno na escola de Nossa Senhora! Mais triste do que o sofrimento sombrio é a tristeza de quem não tem coragem nem brio para enfrentar qualquer percalço ou desafio! "Cruz arrastada é sempre mais pesada do que a cruz aceita, rezada" – S. Teresa d’Ávila.

 Nos caminhos da redenção, o amanhecer vem depois da noite. O progresso, o crescimento espiritual, a serenidade, a paz de espírito, a vivência da fraternidade passam necessariamente pelas “noites da alma”, pelas perguntas sem resposta, pelo sofrimento, pela cruz...

 Ah! Um conselho “paulino”: ser “alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração” – Rm 12,12.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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