Reflexões / Matutações

Ser Santo sem perder a humanidade...

09/11/2016

Ouvi uma pregação sobre a santidade, e o pregador, entusiasmado, quase me convenceu da impossibilidade de ser santo! A vocação do cristão é a santidade – 1Pd 1,15. Isto é uma verdade. Mas, muitas vezes os santos nos são apresentados como super-heróis... As virtudes devem ser heroicas... O corpo deve ser desprezado... A cruz, o sofrimento inaudito... Parece que a santidade foge das possibilidades dos homens e mulheres “comuns”... Fiquei matutando...

Muitos pensam que para sermos santos precisamos perder nossa humanidade. Segundo este entendimento, o que nos impede de sermos santos é aquilo o que somos no decorrer da nossa experiência no mundo, ou seja, nós mesmos. Despojar do “meu humano” seria, portanto, o caminho à santidade.

A santidade, segundo este conceito, parte do princípio medieval que opunha natureza humana e santidade. Afirma que, ao despojarmos de nossa humanidade, podemos alcançar a perfeição e pureza necessárias para que a santidade se realize em nós. Seria necessário perdermos nossa “humanidade” e ao fazê-lo, estaríamos prontos para sermos “santos”, dignos das honras do altar. A humanidade, tudo aquilo que nos constitui (corpo, história, conhecimento, relacionamentos...), seria o empecilho para nossa santificação.

Creio haver certa incoerência a respeito deste conceito, pois aniquilaria toda e qualquer possibilidade de experienciarmos a santidade no aqui-agora, no momento presente da nossa existência. Ficaríamos presos a uma expectativa de que, para alcançarmos uma vida plena no amor necessitaríamos passar pela morte física, considerando que somos seres imperfeitos no amor, seres em construção que, a cada instante se renova através do seu existir, do seu experienciar, do seu ser-no-mundo.

Humanidade e santidade não são coisas opostas, são complementares. São partes de um mesmo ser-no-mundo. Alcançamos a santidade na medida em que experienciamos, no amor, nossa humanidade. Humanizar-se, torna-se, portanto, um estreito caminho para a santidade. A santidade está em descobrir, perseguir e viver o “eu verdadeiro”. “A santidade consiste em ser ‘comum’, em se tornar um homem pleno, e de tal maneira que poucos seres humanos conseguem ser: tão simples e naturalmente, eles mesmos”. – Tomas Merton.

Alcançar a santidade é, portanto, alcançar o Cristo e o outro que caminham ao meu lado. Alcançá-los no amor! Isto é humanizar-se! É na relação com o Outro e com os outros no dia a dia que me humanizo. É da qualidade desta relação de amor que nasce a possibilidade (ou não!) de santificação.

Ser santo é viver coerentemente e radicalmente o amor no dia a dia, na vida comum...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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