Reflexões / Matutações

Permanecei no meu amor

14/07/2016

A Páscoa que vimos celebrando tem uma relação essencial com o amor. Mas é necessário purificar os modos humanos de entender, quando falamos de amor, como maneira de acolher o mistério do amor divino e de o assumir como desafio de vida nova. A palavra "amor" designa, com efeito, grande quantidade "de coisas diferentes, carnais ou espirituais, passionais ou racionais, pesadas ou leves, que fazem crescer ou que destroem. Ama-se uma coisa agradável, um amigo, um animal, os pais, os filhos, uma mulher, a pessoa de sua vida. A palavra "pietas" (piedade designava, no vocabulário romano, o amor peculiar que só se da no âmbito familiar, entre pais e filhos. Foi o primeiro amor de que fomos objeto na vida, ao qual, talvez, só aos poucos aprendemos a corresponder. "Eros" é a palavra grega que designa o amor entre o homem e a mullher. O termo "erótico", derivado dela, geralmente tem conotação pejorativa, por causa da constante presença do erotismo venal na vida dos homens.

Todavia, na realidade, significa um impulso natural, as vezes violento, uma atração para o outro ou a outra, que nos faz vibrar profundamente. O amor-pietas e o amor-eros são manifestações de nossa própria natureza criada por Deus; e, neste sentido, podemos dizer que vêm de Deus. Mas ha outro amor, de que nos fala Jesus, quando diz "meu amor". Inspirados na mensagem do Evangelho, os primeiros cristãos usaram a palavra "ágape" para designar esse amor, que costuma chamar-se "sobrenatural", que nos infunde Deus em Cristo Jesus; é o amor de caridade que é o coração de todo o Evangelho.

Em virtude desse amor compartilhavam o Senhor na mesa comum da Eucaristia, para poder continuar amando a partir dele. Este é o amor no qual o Senhor quer que permaneçamos. Equivale a permanecer no próprio Senhor, como numa misteriosa identidade de pensar e sentir . Apesar de que nem tudo o que se realiza em nome da "caridade" tem a mesma qualidade de alguma coisa realizada "em Cristo". Talvez seja por isso que, na própria Igreja, freqüentemente se deixa de usar esta palavra, porque se presta a equívocos e se desvaloriza tanto ou mais do que a própria palavra "amor". Ha grupos de Igreja em que se prefere substituí-la pela palavra "solidariedade".

 Quando lhe caberá desvalorizar-se também por causa de uma pratica inadequada? Este amor não se opõe a pietas nem a eros, mas os transforma, eleva é, sobretudo, os transcende, até o ponto de tomar-nos capazes de superar os limites de nossa natureza no amor aos irmãos. Deus é a fonte permanente desse amor. Cristo o recebe do Pai, como Filho eterno, e, encamado, o da ao Pai numa resposta de perfeita fidelidade. Assim, o Pai conta com o Filho e o Filho conta com o Pai; o Pai é plenamente para o Filho e o Filho é infalivelmente para o Pai. De sua parte, Jesus Cristo é, por essência, o homem para os outras: para seus discípulos, para todos os homens, especialmente os pequenos, os pobres, os pecadores, os sofredores, os famintos e sedentos da parábola (Mt 25,40), aos quais chama seus irmãos menores.

Por sua vez, o seguidor de Cristo, em virtude da graça pascal, é alguém que vive para Cristo e para o que Cristo ama. Como discípulo, tem consciência de que Cristo conta com ele, mesmo em sua fraqueza, para continuar amando os homens com o amor do próprio Cristo. Como se pode ver, trata-se de um amor que circula, uma contente em que Deus nos convida a entrar e na qual sua graça nos estimula a permanecer. Esse amor é recebido pelo discípulo coma um mandamento, não como imposição de um Deus mandão, mas coma um dom que vem do alto; só assim é possível superar a mentalidade terrena, que facilmente dissocia o amor da obediência, realidades que Jesus uniu de propósito.

A partir de seu amor, o Filho obedece ao Pai, e este é seu "alimento" cotidiano; e o Pai, a partir de sua infinita liberdade, obedece ao Filho quando se deixa ganhar por sua fidelidade. Assim também o discípulo de Jesus, que ama seus irmãos, superando os limites e as barreiras da natureza e os que trazem situações de prova, como Pedro superou seus preconceitos culturais , obedece a uma realidade escondida no ser mais profundo do outro, que é o chamado ao amor. E obedece a Jesus no outro, que a partir dele lhe pede uma resposta de amor. Trata-se de uma resposta dada no discernimento espiritual, que descobre o chamado verdadeiro e o distingue das manobras e dependências doentias, dos caprichos e falsos apoios e das próprias ansiedades. A submissão mútua, em seu total sentido espiritual, é a expressão mais madura do amor de comunhão. 

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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