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A proximidade de Jesus

10/01/2018

«A vida dupla dos pastores é uma ferida na Igreja»: contudo, mesmo se perderem a autoridade, que vem unicamente da «proximidade de Deus e do povo», nunca devem perder a esperança de reencontrar «coerência» e capacidade de «se comover». Celebrando a missa em Santa Marta, na manhã de terça-feira 9 de janeiro, o Papa Francisco alertou os pastores a «não celebrarem os sacramentos mecanicamente, como um papagaio» e a não abrir a porta às pessoas só em horários estabelecidos. Porque perderiam a autoridade e mesmo se pregassem a verdade não poderiam entender os problemas das pessoas e alcançar os seus corações.

«No excerto do Evangelho que ouvimos, aparece duas vezes a palavra “autoridade”», observou o Pontífice, referindo-se ao trecho do evangelista Marcos (1, 21-28) proposto pela liturgia. Na sinagoga de Cafarnaum, explicou retomando as palavras do Evangelho, «as pessoas ficaram admiradas “com o ensinamento: de facto lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os escribas”».

É evidente, prosseguiu Francisco, que estamos diante de «um ensinamento novo, ministrado com autoridade: “Manda até nos espíritos imundos e obedecem-lhe!”». E «a novidade de Jesus é esta autoridade» afirmou o Papa. Porque «as pessoas estavam acostumadas aos escribas, aos doutores da lei: enquanto eles falavam as pessoas pensavam noutras coisas, porque o que diziam não alcançava o coração». Deste modo, «falavam de ideias, de doutrinas, também da lei, e diziam a verdade: isto é verdade, a ponto que Jesus diz às pessoas: “escutai-os, fazei o que vos dizem”».

Portanto, os doutores da lei «diziam a verdade, mas não alcançava o coração: era tudo calmo, tranquilo» reiterou o Papa, observando que «ao contrário o ensinamento de Jesus provoca a admiração», o «movimento no coração: “Mas o que está a acontecer?”». Então, as pessoas «seguem-no, vão atrás dele porque compreendem que o que diz aquele homem é dito com “autoridade”».

Contudo, a tal propósito Francisco convidou a refletir bem sobre o conceito de autoridade. De facto, explicou, «a autoridade não é: “eu mando, tu fazes”. Não, é outra coisa, é um dom, é uma coerência». «Jesus recebeu este dom da autoridade: digo dom, não sei se a palavra é correta, mas ele recebeu-a». Assim «quando, no final do Evangelho de Mateus, se lê o envio dos apóstolos a “missionar” o mundo, ele diz: foi-me dada toda a autoridade, no céu e na terra. Sou homem de autoridade. Ide, mas com esta autoridade». Como para dizer: ide «com esta coerência».

«É uma autoridade divina, que vem de Deus» afirmou o Papa. Portanto. «quando os discípulos o interrogam sobre a data do fim do mundo, ele responde: “Ninguém sabe, nem o Filho”. É um tempo que o Pai tem na sua autoridade». «Isto tinha Jesus, como pastor, e o povo falava de um “ensinamento novo”, um modo novo de ensinar que fazia admirar, chegava ao coração. Não como os escribas». Jesus, repetiu o Papa, «ensinava com autoridade: era um pastor que ensinava com autoridade».

«Mas os escribas o que faziam?» perguntou o Pontífice. «Eles – respondeu – ensinavam o que tinham aprendido: na escola rabínica, que era a universidade daquela época, lendo a Torá. Ensinavam a verdade. Não ensinavam coisas más: absolutamente não! Ensinavam as verdades da lei»; mas não chegavam ao coração das pessoas «porque lhes ensinavam precisamente da cátedra e não se interessavam pelo povo».

«Porque o que dá autoridade – uma das coisas que dá autoridade – é a proximidade e Jesus tinha autoridade pois se aproximava das pessoas», frisou Francisco. Deste modo «ele “entendia” os problemas das pessoas, as suas dores, os seus pecados». Por exemplo, explicou o Papa, Jesus «compreendeu bem que aquele paralítico no tanque de Betsaida era um pecador» e «depois de o ter curado o que lhe disse? “Não voltes a pecar”. Disse o mesmo à adúltera».

O Senhor dizia estas palavras, prosseguiu o Pontífice, «porque estava próximo, compreendia, acolhia, curava e ensinava com proximidade». Portanto, «o que dá autoridade a um pastor, ou desperta a autoridade que é dada pelo Pai, é a proximidade: proximidade de Deus na oração – um pastor que não reza, que não procura Deus perdeu uma parte – e a proximidade do povo». É um facto, acrescentou, que «o pastor distante do povo não o alcança com a mensagem».

Por conseguinte, insistiu Francisco, é preciso «proximidade, esta dupla proximidade». E «esta é a “unção” do pastor que se comove diante do dom de Deus na oração, e pode comover-se diante dos pecados, dos problemas, das doenças do povo: deixa-se comover».

Ao contrário, «os escribas, aqueles que não se deixavam comover: tinham perdido esta capacidade porque não estavam próximos de Deus nem do povo» afirmou o Papa. E «quando se perde esta proximidade, onde acaba o pastor? Na incoerência de vida». Jesus, observou Francisco, «é claro nisto: “fazei o que dizem” – dizem a verdade – “mas não o que fazem”». É a questão da «vida dupla».

«É terrível ver pastores com vida dupla: é uma ferida na Igreja» disse o Papa. É mau ver «os pastores doentes, que perderam a autoridade e continuam nesta vida dupla». Mas, acrescentou, «há muitos modos de continuar a vida dupla e Jesus é muito forte com eles: não só diz ao povo para os ouvir, mas para não fazer o que fazem. E a eles o que diz? “Vós sois sepulcros caiados”: bonitos na doutrina, de fora; mas por dentro podridão». «Este é o fim do pastor que não tem proximidade com Deus na oração e com o povo na compaixão».

Talvez, afirmou o Papa, algum pastor poderia reconhecer que «perdeu a proximidade» dizendo a si mesmo: «não rezo; quando celebro os sacramentos faço-o mecanicamente, como um papagaio: as pessoas cansam-me; estou disponível para elas de tal a tal hora, coloco o aviso na porta; não estou próximo: perdi tudo, Padre?”».

A este propósito, confidenciou Francisco, «vem-me ao coração uma figura bíblica de um sacerdote que me enternece: pecador, mas me enternece». É a história do «velho Elias», apresentada na leitura bíblica tirada do primeiro livro de Samuel (1, 9-20). Elias «era um débil, tinha perdido a proximidade com Deus e com o povo e deixava correr» explicou Francisco, frisando que «os filhos maltratavam as pessoas, eram sacerdotes, levavam em frente a situação e ele deixava, permanecendo no templo». Um dia Elias vê Ana que reza «e algo chamou a sua atenção naquela mulher, observou-a» pensando que estivesse «embriagada». Portanto, convidando-a a voltar para casa enquanto a embriaguez não passasse.

Mas Ana, lê-se no trecho do Antigo testamento, revelou a Elias que não estava embriagada mas «muito amargurada por várias razões». De facto, Ana responde: «Não consideres a tua escrava uma mulher perversa, porque até agora me fez falar o excesso da minha dor e da minha angústia». E «enquanto ela falava – observou o Pontífice – ele foi capaz de se aproximar daquele coração: o fogo sacerdotal elevou-se das cinzas de uma vida medíocre, má, de pastor». Então, eis que Elias responde à mulher: «Vai em paz e o Deus de Israel te conceda o que lhe pediste».

Portanto, Elias «que tinha perdido a proximidade com Deus e com o povo – prosseguiu o Papa – por curiosidade se aproximou de uma mulher, mas depois de a ouvir, deu-se conta de ter errado e do seu coração saíram a bênção e a profecia». Francisco quis repropor a atualidade da história de Elias: «Direi aos pastores que viveram separados de Deus e do povo, das pessoas: não percam a esperança, há sempre uma possibilidade». A Elias «foi suficiente olhar, aproximar-se de uma mulher, ouvi-la e despertar a autoridade para abençoar e profetizar: a profecia foi feita e o filho nasceu».

«A autoridade – concluiu o Papa – é dom de Deus, vem só dele e Jesus doa-a aos seus: autoridade no falar que vem da proximidade com Deus e com o povo, sempre os dois juntos; autoridade que é coerência, não vida dupla». E «se um pastor perder a autoridade pelo menos não perca a esperança, como Elias: há sempre tempo para se aproximar e despertar a autoridade e a profecia».

Autor: osservatoreromano.va

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