Reflexões / Matutações

Nenhum leigo pregando? estranho...

29/01/2018

Um cartaz, divulgando a “Festa da Paróquia”, trazia o “programa religioso” da novena. O tema geral: “Sal da Terra e luz do mundo” – o Ano do Leigo (a). Todos os temas abordados na novena se referiam aos “leigos e leigas” na Igreja, mas observei que nenhum leigo ou leiga estava convidado para falar, somente padres. Fiquei matutando: estranho, né?

Na História da Igreja é impressionante a participação de lideranças leigas nas primeiras comunidades cristãs. Aliás, o cristianismo nascente, na sua essência, é leigo, nasce dentro do judaísmo como uma espécie de “seita”. Os primeiros seguidores e seguidoras de Jesus não pertencem ao clero do judaísmo. São pescadores, em sua maioria.

Quando a Igreja primitiva começa a criar pequena estrutura, tendo à frente os apóstolos, particularmente Tiago, Pedro e João, são “os não pertencentes à hierarquia” os principais responsáveis pela divulgação do evangelho. No começo houve um conflito entre as duas comunidades cristãs em Jerusalém, a dos hebreus e a dos helenistas. Estes reclamavam que suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária - At 6,1. Para que os apóstolos possam se dedicar exclusivamente à Palavra, são escolhidos sete homens, todos gregos, para servir à mesa.

Depois da morte de Estêvão, começa forte perseguição aos cristãos helenistas em Jerusalém e todos, exceto os apóstolos, se dispersaram - At 8,1. “Entretanto, os que haviam sido dispersos iam por toda parte anunciando a Palavra” - At 8,4. E, assim com os cristãos nascem diversas comunidades cristãs. E as comunidades vão dando o contorno à Igreja.

O cristianismo não se vai formando de dentro para fora, mas de fora para dentro. Ou seja, os cristãos que se dispersaram para os diferentes lugares, cidades e países encontraram culturas distintas e, no contato com elas, formaram as comunidades, cada uma com sua própria experiência. Assim, as lideranças leigas tiveram papel decisivo na formação da Igreja primitiva.

Paulo foi um dos principais promotores das lideranças leigas. Podemos dizer que contar com leigos foi uma de suas principais estratégias de pastoral. Ele deixava-se ajudar por elas na missão, valorizava seu trabalho, incentivava-as e compartia responsabilidades. Silas, Barnabé, Timóteo, Lídia, Dâmaris, Tabita, o casal Priscila e Áquila, etc. estão entre os seus principais companheiros e companheiras de caminhada. A carta aos Romanos apresenta uma incrível lista de 30 pessoas – Rm 16,1.

Na América Latina os leigos tiveram e têm papel determinante. É possível dizer que sem eles e elas a Igreja na América Latina não existiria. No entanto, ainda são um potencial a ser descoberto e valorizado. Enquanto isso, os cartazes continuam...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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