Reflexões / Matutações

Você faz alguma coisa ou só prega?

11/01/2018

"Dia desses", numa reunião do CAP – Conselho Arquidiocesano de Pastoral - conversava com um líder e ele questionou minha "posição" sobre "justiça social e evangelho". Perguntou se eu fazia alguma coisa ou "se só pregava". Olhei bem para ele: "O que você quer dizer com isso?". Geralmente, querem dizer que o mais importante é trabalhar para estabelecer um "mundo mais justo e fraterno", pela ação social, e não a pregação...

Fiquei matutando que esta é uma visão muito comum em nossa Igreja... Mas Deus não enviou seus discípulos, a comunidade de fé, para melhorar o mundo por meio de programas sociais ou obras assistenciais. Nada na Bíblia ensina ou mesmo sugere isso. As comunidades primitivas, que enfrentavam problemas sociais semelhantes aos de hoje, não foram instadas a isso. Jesus enviou a Igreja para pregar o Evangelho e dar de graça aquilo que recebeu – Mt 10,7 e isso não é alienação!

Há quem diga que os profetas do AT centravam suas ações somente na reforma social e que a Igreja deveria também fazer isso. Ainda que condenassem os pecados sociais, os profetas não viam isso como o problema central, mas sim como sinal do abandono da Aliança com Deus, a raiz de todos os males. O centro de suas denúncias era, na verdade, a apostasia da nação. Na visão dos profetas, a solução para as injustiças que tanto atacavam era o arrependimento, a conversão a Deus, e não a implementação de programas sociais.

Por isso, é equivocado dizer que os profetas eram essencialmente reformadores sociais e “voz dos oprimidos e excluídos pela sociedade”. Na verdade, a tarefa que cabe à igreja diante do mundo é pregar o Evangelho da cruz – 1Cor 2,2! Esse evangelho, quando acolhido pela fé, transforma a pessoa, tirando-a da ignorância e do mau caminho, levando-a ao amor fraterno sincero e engajado. O Ideal de “um mundo mais justo e fraterno” se concretiza a partir da conversão ao Evangelho, conversão que vem da pregação!

A conversão se faz sentir não apenas na vida pessoal do homem, mas também no seu trabalho, nas suas escolhas políticas, na sua avaliação do direito, na obediência as leis, nas suas concepções éticas, no seu comportamento moral, na sua visão e prática econômica e na importância que passa a dar à educação.

O indivíduo transformado pela fé começa a agir em favor de seu semelhante, não movido por conceitos marxistas ou por tendências político-filosóficas, mas sim por ser “um homem novo” - 2Cor 5,17. Ele é o homem que roubava, mas agora não rouba mais, antes trabalha para socorrer o que tem necessidade - Ef 4,28. A verdadeira conversão leva ao amor a Deus que não é verdadeiro se não for também amor ao próximo, amor de fato e não só de palavras – 1Jo 3,18.

Todo esse impacto social do evangelho não é, contudo, o objetivo central do trabalho da Igreja diante do mundo que a cerca. É “apenas” o efeito transformador que o Espírito Santo opera no homem que aceita a fé. Ora e sabemos que a fé vem pela pregação! – Rm 10,17.

O Evangelho de Cristo sempre produziu esse efeito, basta olhar para as ações sociais - libertadoras realizadas por cristãos convertidos ao longo dos séculos, muito antes de surgir qualquer proposta “libertadora”, que muitas vezes se trata apenas de artifícios para transformar a Igreja numa aliada na promoção de ideologias marxistas, sob o disfarce de Evangelho.

Por isso, se a igreja quer realmente causar impacto no mundo, é preciso concentrar seus esforços na pregação do evangelho autêntico, destacando a obra de Cristo, o arrependimento, a fé e a conversão. Isso fará com que venha de fato um “mundo mais justo e fraterno”.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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