Reflexões / Matutações

Questões recorrentes nas crises de fé de muitos

06/12/2017

Assistir os noticiários da noite continua sendo uma receita para pesadelos... Tive uma noite tumultuada e acordei várias vezes “falando no vazio”... Com o coração agitado, ouvia risadas de escárnio e provocação... Senti a tentação de murmurar e lamentar por escolher o caminho de Deus, mesmo que imperfeitamente, já que sou fraco e falho... Lutei madrugada adentro e acordei com aquela sensação de ter lutado com um “urso”...

À noite, como um turbilhão, perguntas me assaltavam... Como crer em um Deus de amor e bondade num mundo repleto de sofrimentos cuja palavra última parece ser à violência e a insensata morte moderna? O que responder diante do padecimento do inocente nas mãos do injusto? Como crer na justiça se, os criminosos são soltos e os assassinos gozam de facilidades?

 Veio em meu socorro a Sabedoria e matutei que essas, e outras questões, são recorrentes nas crises de fé de muitos e “amarguram o coração e geram dor aguda nos rins” – Sl 73(72),21.

 Um Salmo iluminou a manhã que chegava: Salmo 73(72), que faz um quadro da realidade de sofrimento e morte que atravessamos. Permanece como tentação a impunidade do ímpio que, favorecido pela “cultura de morte”, mais do que nunca “levanta sua boca até o céu e sua língua percorre a terra”- v.9. A tentação é “falar como ele” – v.15. No meio dessa realidade contraditória e injusta somos chamados a confessar a bondade de Deus. Louvor que só pode ser autêntico se realizado a partir de uma experiência concreta, encarnada na realidade humana.

 Não podemos nos alienar afirmando que o céu é dissociado das realidades terrenas - v. 25, pois para estar na presença de Deus, é preciso “caminhar nesta terra”. Somente quando se considera o valor de estar com Deus e a transcendência da vida humana é que se encontra um caminho de salvação neste caos. Somente contemplando o destino final da vida humana apesar de toda e qualquer adversidade é que se encontra um sentido para viver. Somente retomando a promessa da vida eterna, que é Deus mesmo, encontraremos a esperança contra toda desesperança.

 Não é alienação crer na vida eterna. A tentação está exatamente em não crer na eternidade. “Por pouco meus pés tropeçaram” – v.2. A inveja dos arrogantes e a prosperidade dos ímpios – v.3 questionam nossas escolhas e convicção. Experimentamos o impacto de estarmos à beira de um abismo quando “somos agarrados pelas mãos” – v.23 e arrebatados do precipício – v.24.

 Uma experiência é necessária: “Até que entrei no santuário de Deus, e compreendi o destino deles” - v.17. No santuário – a presença de Deus – fazemos uma experiência que por nós mesmos não somos capazes de fazer – v.13; experiência vem de fora, como uma graça concedida. A crise e o escândalo são dissipados através da experiência do Espírito que se torna luz fulgurante dando força para se continuar o itinerário da vida... A experiência do Eterno nos faz perceber o destino dos ímpios... Aquilo que parecia a verdade mais vívida agora é uma imagem que se dissipa, um sonho que se despreza - v.20. Não, não é em vão manter-se nos caminhos do Senhor!

 O melhor de tudo é a própria relação com Deus, que não é uma “teoria dos acontecimentos”, não uma resposta pessoal a um problema, mas uma “presença pessoal”. O bem verdadeiro prometido por Deus à humanidade que não se resume em coisas temporais que logo perecem, mas no bem maior que é Ele mesmo, a vida eterna em Deus.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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