Reflexões / Matutações

O dom extraordinário o seu próprio Espírito

16/11/2017

Lendo uma apostila, que não tem autor, só a indicação que se trata de um monge cartuxo; apostila, que ganhei a muitos anos de D. Bento, beneditino de Serra Clara. Nas páginas amareladas impressas num “mimeógrafo a tinta” – coisa antiga mesmo – encontrei alguns tesouros e fiquei matutando...

 “O Senhor Jesus nos deu como dom extraordinário o seu próprio Espírito, ao qual confiou o cuidado de nossa santificação, pois é toda uma obra de amor. Quem poderia realizá-la melhor do que ele, que nasce eternamente do amor que o une ao Pai”?

 Mas esse dom é recebido em nossa natureza humana limitada e ferida pelo pecado - 2Cor 4,7. Somos como crianças às quais foi dada a Suma teológica de Santo Tomás de Aquino. Não sabemos senão soletrar uma ou outra letra, no máximo ler algumas palavras. Nosso esforço para viver nossa vida divina, iluminada pela luz da fé e da razão, é imperfeito. Visto que restam feridas em nossa natureza, que obscurecem nosso espírito e colocam mil obstáculos entre nossa vontade e nossos atos.

 No fundo, só Deus está à altura de Deus. Só o Espírito Santo pode curar-nos e fazer com que vivamos segundo a plenitude da graça que recebemos. Não somente no céu, mas também aqui e agora. Somos filhos de Deus, e é assim que queremos e devemos viver. Toda a nossa vida é uma nova criação, mas que não é feita sem a nossa cooperação.

 Este é o drama. De um lado, nossa liberdade frágil, nosso espírito aturdido pelo barulho dos sentidos do mundo. Do outro lado, a vida maravilhosa que levamos em nós, vida divina, eterna, animada pelo Espírito Santo. O Espírito, com efeito, não está passivamente em nós porque é Amor, Vida, Luz, ele é Deus. Ele não somente nos concede participar da vida divina, mas é também o princípio do amor e da luz que agem constantemente em nós. Ele nos ajuda a viver segundo o que somos. “Os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” - Rm 8,14.

 A solução é esta: deixar-se conduzir pelo Espírito - Gl 5,16, deixar-se transformar pelo Espírito na imagem de Cristo - 2Cor 3,18, viver segundo o Espírito - Gl 5,25, livremente. Porque podemos opor-nos à ação do Espírito, podemos entristecê-lo - Ef 4,30. O Espírito não age tiranicamente. Não nos trata como autômatos. Sua ação é profunda, mas discreta. Convida sem impor. Não nos faz perder a nossa liberdade, mas nos torna livres.

 Aqui está a importância da docilidade ao Espírito e sua dificuldade. Ele nos faz entrar num âmbito novo da realidade. A docilidade não vem a nós por si só. Deve ser aprendida num aprofundamento contínuo de nossa escuta e de nossa disponibilidade.

 Além do dom da graça santificante, recebemos, para viver nossa vida de filhos de Deus, uma sensibilidade nova que nos abre à ação do Espírito. Os padres da Igreja falavam de velas da barca de nossa alma, que nos permitem captar o sopro do Espírito...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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