Reflexões / Matutações

O que devo fazer para herdar a vida eterna?

13/11/2017

Não sei o porquê, mas acordei matutando numa pergunta que atravessa o tempo. A mesma pergunta feita pelo doutor da Lei a Jesus para experimentá-lo: “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna”? – Lc 10,25. A resposta de Jesus é perfeita e deixa confuso seu interlocutor. A Lei, aliás, é clara. Os dois textos, do Deuteronômio e do Levítico, lidas em conjunto, não deixam dúvida: é o amor a Deus e ao próximo que nos fazem herdar a vida eterna - Lc 10,26-28.

Matutava que num mundo, como o nosso, voltado para as coisas temporais temos dificuldade em avaliar a importância e o alcance da pergunta. Seria semelhante a perguntar como resolver as graves distorções de nosso sistema econômico-político através de uma fórmula direta e “mágica”. No contexto histórico do judaísmo, no tempo de Jesus, era um desafio indicar o que fazer para herdar a vida eterna. O “doutor da Lei” sondava Jesus para ver até que ponto sua vida e sua pregação estavam de acordo com a Lei de Deus.

Diante da resposta tão “direta”, o doutor da lei, embaraçado, sente que precisa justificar a pergunta: “Mas quem é o meu próximo?” Jesus responde com a parábola, bem conhecida hoje, do “Bom Samaritano” que termina com outra pergunta, agora feita por Jesus: “qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes”? – Lc 10,36. Essa resposta não é simples. Não decorre da consciência que temos de nosso dever de estado, pois, aos sacerdotes e levitas não competia cuidar daquele homem. Também não decorre da ideia que fazemos de nossa vocação, geralmente marcada pela busca da felicidade e medida pelo sucesso que obtemos com o nosso esforço. Também não vem de uma concepção religiosa marcada e pautada pelos favores que achamos ter o direito de receber de Deus a partir do cumprimento de nossas obrigações.

A pergunta de Jesus é sutil e introduz uma verdade que nem sempre percebemos: não somos nós que escolhemos quem é o nosso próximo, com que nos devemos ocupar. Nem sempre, ou, quase nunca, as nossas opções correspondem ao que Deus de nós espera. “Mais importante do que fazer o que pensamos ser vontade de Deus é responder com amor às circunstâncias em que somos colocados por Ele “ – S. Francisco de Sales.

Responder com amor às circunstâncias da vida é, em primeiro lugar, aceitá-las com humildade, como o samaritano, que se comoveu com o sofrimento e a dificuldade do outro. Ser tocado visceralmente pela necessidade do outro e tomar uma atitude ativa de cuidado e fazer tudo que está ao nosso alcance para aliviá-lo de seu sofrimento. Pensar suas feridas e pagar para que seja corretamente cuidado pelos que têm competência para tanto.

A resposta agradou o Senhor: foi próximo do homem assaltado aquele que usou de misericórdia para com ele! São herdeiros da vida eterna os que vivem animados pela compaixão, pela misericórdia. Compaixão e cuidado nos aproximam uns dos outros, constroem as comunidades, edificam a Igreja, promovem a paz. Jesus conclui o diálogo com: “Vai, e também tu, faze o mesmo”!

A parábola do samaritano é uma explicitação do mandamento do amor. Na fonte da misericórdia e do cuidado, que constroem a comunidade, está o amor de Deus e do próximo, inseparáveis, constituindo tão intimamente um único mandamento, que o primeiro não é autêntico sem o segundo nem o segundo pode existir sem o primeiro - 1Jo 4,20.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

Deixe seu comentário

Últimas


O conteúdo do Natal nos Padres da Igreja - 14/12/2017

Perdemos o senso do Natal! - 13/12/2017

Dia de Nossa Senhora de Guadalupe - 12/12/2017