Reflexões / Matutações

O inferno

09/11/2017

Estava matutando... Falar ou escrever sobre o inferno é difícil, parece algo ultrapassado, medieval, “tridentino”, como alguns gostam de falar. Aliás, esse é um tema “esquecido”, empurrado “para debaixo do tapete”. A mentalidade pós-moderna não aventa essa possibilidade, reduzindo a vida ao estar aqui, feliz ou infeliz. Mas esse ensino faz parte do tesouro da fé cristã – Catecismo 1033-1037.

 O questionamento sobre a pena eterna é objeto de discussão há bastante tempo no meio cristão e alguns chegaram a sustentar “que Deus não poderia abandonar alguém no inferno ‘eternamente’, porque contradiria à criação, a paternidade e sua misericórdia infinita. Tal concepção afirma que no final de tudo, Deus teria compaixão até dos demônios e salvaria a todos. Essa visão aproxima-se da teoria espírita e oriental do ‘karma’, a qual sustenta que no fim, por mais duras que sejam as reencarnações, tudo chega à perfeição” – Pe. L. A. Brustolim.

 O Evangelho, de fato, revela que Deus criou tudo para a salvação e não quer que nada se perca. E o inferno é, de fato, “um escândalo até aos olhos de Deus” – L.C. Susin. O inferno, no entanto, não foi criado por Deus, mas pela decisão das criaturas livres e inteligentes, anjos e homens, que decidem serem inimigos do Criador (diabos). A “possibilidade” de uma condenação eterna revela a grandeza de nossa liberdade, a dignidade e a seriedade de nossas escolhas. A criatura humana foi feita para ser livre, porque o amor é livre e só o amor salva. “O inferno deve permanecer como a séria possibilidade de recusarmos livremente e definitivamente o amor de Deus, rejeitando a comunhão com Ele” – Bento XVI.

 Pode ser muito difícil que alguém escolha o inferno, porque a vida neste mundo é tempo de salvação, o kairós. Não podemos julgar ninguém, e nem podemos afirmar sobre alguém que estaria no inferno. Entretanto, quando se vê tanta malícia e corrupção, tanta monstruosidade criada com fria crueldade, é muito difícil pensar que o inferno não exista.

 Por mais difícil que seja pensar num Deus que permite a frustração eterna da criatura, seria otimismo cego amenizar o peso e o significado das opções pela cultura da morte que invade a sociedade o coração de alguns. Sem desejar e nem julgar quem está ou vai ao inferno, é preciso manter, com a tradição bíblica e apostólica e o magistério, a possibilidade de uma condenação eterna, pois a história é o tempo do amor e das opções pela vida.

 E sobre aqueles que não podem decidir? As multidões de homens e mulheres privados de direitos, de liberdade e de esperanças. Certamente o critério para a condenação é ser livre, maduro e responsável, não vítima e nem padecer com as decisões dos outros. São perspectivas diferentes do mesmo julgamento. O Juiz não usa senão critérios da misericórdia divina que considera as condições internas e externas de cada pessoa, na liberdade e responsabilidade de cada uma.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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