Reflexões / Matutações

A vida espiritual e sua dimensão afetiva

08/11/2017

Preparando um Retiro pesquisava a respeito da vida espiritual e sua dimensão afetiva, sensível e, porque não, passional; sobre a relação entre os sentidos, sentimentos e afetividade... Num livro do Cardeal Carlo Maria Martini (+2012), deparei-me com uma citação das “Confissões de Santo Agostinho”, que já conhecia, mas estava escondida na memória. Apanhei o volume e li o parágrafo citado. O texto é tão extraordinariamente belo, tão significativo, que fiquei um bom tempo com o livro aberto e com o coração “atingido”. Depois “matutei em compartilha-lo como matutação”...

 Santo Agostinho, Confissões – Livro X; par. VI.8

 Amo-te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a tua palavra, e eu amei-te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que te ame, e não cessam de o dizer a todos os homens, de tal modo que eles não têm desculpas. [...]

Mas que amo eu, quando te amo? Não a beleza do corpo, nem a glória do tempo, nem esta claridade da luz, tão amável a meus olhos, não as doces melodias de todo o gênero de canções, não a fragrância das flores, e dos perfumes, e dos aromas, não o maná e o mel, não os membros agradáveis aos abraços da carne. Não é isto o que eu amo, quando amo o meu Deus, E, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume que o vento não dissipa, e onde dá sabor que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus.

 Como não rezar? Como não desejar tais sentimentos, tais afetos e tal paixão? 

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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