Reflexões / Matutações

Quem enfrenta o mal é capaz de superá-lo

07/11/2017

O noticiário da noite trouxe pesadelos. A violência e a morte de inocentes que passeavam inquietou meu sono. Acordei com a sensação de não ter dormido e matutando como superar “o mal” que nos atinge gratuitamente...

 Santo Agostinho (430) diz que o mal se identifica com o “não ser”, pois o bem é identificado claramente como a perfeição e a beleza. Assim concebemos o “mistério do mal” em chave negativa, entendendo que ele é sempre a “ausência do ser” e, portanto, uma realidade defeituosa. Isso nos leva a valorizar a bondade divina e a ação do amor; mas diante do sofrimento do inocente ou da fatalidade que cai sobre nossas cabeças, a resposta será a da teologia do “dolorismo”, do sofrimento masoquista e, algumas vezes até considerar a “ausência de Deus” nas horas de conflito.

 Precisamos de alguém que venha em nosso auxílio e diga-nos uma palavra diferente e carregada de sentido. Alguém que nos proteja do mal, nos guarde de todo mal e nos acompanhe na batalha contra o mal. Precisamos de Deus. No enfrentamento do mal não devemos fazê-lo sozinhos, mas acompanhados por Deus mesmo. Pensar o mal, decifrar o enigma do mal a partir da presença de Deus como nosso advogado, nosso protetor e nosso irmão que ama e que salva e no Espírito que nos anima e fortalece. Não temos todas as respostas, mas com Jesus rezamos: “Por que me abandonaste?” Assim, a oração que fazemos na cruz e no abandono, “longe de ser uma expressão de incredulidade, é a forma mais pura da fé”. – J. Comblim.

 Deus não é o pai do mal nem seu sustentáculo. Ele é nosso aliado no enfrentamento do mal. Deus não nos faz impotentes, mas se torna nosso companheiro de estrada e de esperanças. Assim diz o salmista: “Vós contaste os passos da minha vida errante e recolhestes as minhas lágrimas” - Sl 56/55,9.

 Quem enfrenta o mal é capaz de superá-lo, mesmo ficando com marcas e feridas. Nossa força está em Deus. “Eu vos dou o poder de calcar aos pés serpentes e escorpiões” - Lc 10,19. A questão do mal sustenta muitos ateísmos e proclama sempre a ausência de Deus na salvação de Seus amados e do povo escolhido. O testemunho de Jó, Jeremias, Sofonias, Amós, João Batista e o próprio Jesus é suficiente para proclamar a verdade sobre Deus em favor do sofredor, no enfrentamento da maldade e na esperança da vida plena. Pôr a culpa em Deus pode aliviar, mas não resolve da dor humana. Contra Deus e sem Ele, ficamos ainda mais frágeis e na orfandade. Nada ganhamos e tudo perdemos.

 Deus é por nós e conosco enfrenta o mal. Isto não é alienação, nem conformismo. Em Deus temos um amigo e uma força para seguir lutando, sem entender todo o mistério da vida e do mal, mas certos de que Ele está conosco, para nos livrar, sem mágica e ilusões, mas na experiência diária do viver. Chamado ou não, Deus estará sempre presente para quem ama e quer viver, para que “no dia da desgraça, me esconda em sua tenda” - Sl 27/26,5.

 No Apocalipse a luta contra o “mistério da iniquidade” é representada por uma mulher que protege seu Filho Amado. “O mal é enfrentado pelo amor de uma mãe que cuida do fruto de seu útero e que acredita na força de Deus. O amor é mais forte que a morte. Ainda que o mal tente se camuflar e disfarçar, quem é discípulo de Jesus Cristo conhece seu Salvador e crê na verdade” – F. Altemeyer. Assim age movido por Deus de dentro de seu coração. Na hora da dor e da presença do mal, o cristão reza e confia: “Na minha aflição clamei ao Senhor, e Ele ouviu-me. Livrai-me, Senhor, dos lábios mentirosos, e da língua traiçoeira” - Sl 120/119,1.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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