Reflexões / Matutações

As Bem Aventuranças

03/11/2017

As “Bem Aventuranças” sempre me impressionaram, mesmo antes de meu encontro com Jesus. Suas propostas e aquilo que é declarado “feliz – bem aventurado”, sempre me questionam, pois são afirmações opostas ao que a cultura humana propõe ou impõe A liberdade expressa em cada uma delas, o valor escondido, o ideal proposto, interrogam meus valores e objetivos de vida. O desejo de ser feliz, impresso no coração do homem, encontra aqui sua resposta; ou deveria...

 Num dia desses, estava matutando sobre uma das “Bem Aventurança“ – “Felizes / bem aventurados os que choram, porque serão consolados”, Mt 5,4 – e me lembrei de que Jesus chorou às portas de Jerusalém por causa do coração endurecido daquela cidade; chorou pelo o que iria acontecer a ela; pelo fato que não reconhecendo a visita que Deus lhe fazia, mataria “o Filho do Senhor da Vinha”- Lc 19,41.

 O profeta, Jonas, também chorou às portas de Nínive. Jesus é mais que Jonas – Lc 11,32, que, desgostoso, chorou às portas de Nínive porque “a grande cidade” havia se convertido, chorou a ponto de desejar a morte! – Jn 4,3. A diferença entre Jesus e o profeta “mal humorado” é aquela que existe entre Deus e o homem: a misericórdia! “O coração se comove no meu peito... Não me deixarei levar pelo calor de minha ira... Eu sou Deus, não um ser humano, sou o Santo no meio de ti, não venho com terror” – Os 11,8.

 Seu pranto manifesta a impotência diante da recusa à conversão e revela um amor fiel face à infidelidade. Essa é a única forma de criar a liberdade onde existe a escravidão, suscitar uma resposta de amor no coração empedernido pelo pecado, oferecer uma possibilidade de salvação irrevogável para todos e para sempre. Jesus sofre e tem uma profunda compaixão por quem tem o coração empedernido e não é capaz de “compreender o caminho da paz”, de reconhecer o “tempo em que é visitado”.

As palavras que Jesus dirige a Jerusalém não são uma ameaça, nem sua destruição um castigo. É semelhante a uma mãe que quando diz a sua filha pequena que não toque na porta do “forno, onde está assando pães de queijo”, não está ameaçando. E se porventura a pequena tocar a porta que está “pelando”, a queimadura não será um castigo, mas consequência de sua “teimosia”. Deus é misericordioso e perdoa generosamente! – Ez 34,6.

 Suas palavras são uma sofrida constatação daquilo que nossa desobediência e nosso coração “de pedra” causam a nós mesmos. Suas palavras são uma sofrida constatação do mal que nos ameaça e que nos atingirá, caso não O acolhamos em nossas vidas, em nossos corações, quando da “sua visita”! As consequências da desobediência de Adão caíram sobre Ele, e Ele as carregou para a cruz. Na cruz, angustiado e abandonado pela maldade do mundo morrerá para nossa salvação.

 O pranto de Jesus não expressa ameaças ou condenações, mas sim seu amor imenso, que o fragiliza e o leva para cruz – 2Cor 13,4. Seu poder nos criou. Seu amor nos salvou.

 “Felizes – bem aventurados – os que choram, porque serão consolados”... É Ele mesmo quem chora, o Rei chora às portas de sua cidade. Concretiza assim o mistério do Reino: a semente é lançada entre lágrimas! Mas “quem semeia entre lágrimas colherá com alegria... volta alegre, trazendo seus feixes”! - Sl 126,5.

 Rezei pedindo a graça de saber chorar pela causa do Evangelho... Senhor, que eu tenha um coração semelhante ao Teu...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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