Reflexões / Matutações

Vida Espiritual e Ascese

30/10/2017

Durante um Encontro alguém me disse que tinha algumas dificuldades na vida espiritual e que a dimensão ascética era muito dura. Quem não tem dificuldades na vida espiritual...

 Fiquei matutando... Nós somos os herdeiros de uma espiritualidade que concebia o caminho espiritual em numa sequência: via purgativa, via iluminativa e via unitiva. O ensino que recebi, nos tempos de estudo no Colégio “dos padres” e na formação inicial de meu caminho, era que para chegar à via unitiva era necessário exercitar por muito tempo a ascese, antes de poder experimentar a presença de Deus. Todo fervor que se manifestasse antes deveria ser considerado falso e até uma tentação.

 Em geral, era ensinado que a “experiência de Deus”, com tudo o que ela significa, se destina, somente, aos “perfeitos”. Os outros, “os “proficientes”, devem buscar especialmente a mortificação, sem pretender, enquanto lutam ainda com os seus próprios defeitos, fazer uma experiência forte e direta de Deus e do seu Espírito.

 Existe uma grande sabedoria e experiência na base de tudo, e esse ensino não pode ser considerado ultrapassado É necessário, porém, dizer que um esquema tão rígido assim corre o risco de favorecer a mudança de acento, de foco: da graça ao esforço do homem, da fé às obras, até beirar o pelagianismo. No Novo Testamento percebemos que há uma simultaneidade entre as duas coisas: a ascese favorece a experiência do Espírito e a experiência do Espírito é necessária para se viver a ascese.

 Um ascetismo realizado sem um impulso do Espírito seria esforço morto, e não produziria mais do que “o orgulho da carne”. Para São Paulo, é “com a ajuda do Espírito morremos para as obras da carne” - Rom 8,13.

 O Espírito nos é dado, também para sermos capazes da ascese, não como prêmio, mas como graça necessária para a própria ascese. Uma vida cristã cheia de esforços ascéticos e penitências, mas sem o toque vivificante do Espírito, seria semelhante “a uma Missa na qual se lessem as leituras, se realizassem todos os ritos, mas na qual não ocorresse a consagração das espécies pelo sacerdote. Tudo permaneceria o que era antes, pão e vinho. Assim é também para o cristão. Se também ele realizou perfeitamente a ascese, mas não realizou, pela graça de Deus, no altar do seu coração, na mística do Espírito, todo esse processo ascético é inacabado e quase vão, porque ele não tem a experiência do Espírito agindo  em seu coração” – Fr. R. Cantalamessa.

 Este caminho, da experiência do Espírito para a ascese, foi o caminho que Jesus fez com seus apóstolos e discípulos. A razão que nos leva a redescobrir este caminho é que a vida cristã não é apenas e somente uma questão de crescimento pessoal em santidade e contemplação. É também uma vida ativa de testemunho e missão; de fraternidade e comunhão; assim precisamos do “poder do alto”, dos carismas; em uma palavra, de uma experiência forte, pentecostal, do Espírito Santo!

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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