Reflexões / Matutações

O fermento dos fariseus

17/10/2017

Matutava sobre a “vida no Espírito” e um versículo veio a minha memória: “Cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” – Lc 12,1. Jesus dizia isso aos seus discípulos, portanto é alguma coisa que devemos prestar atenção – vigiar – em nossa vida cristã.

 Mais a frente encontramos uma parábola que tipifica o fariseu – Lc 18,9: o fariseu é o protótipo da pessoa que se sente segura de si mesma porque cumpre minuciosamente as observâncias religiosas. Em sua oração, ele não pede nada, mas informa a Deus sobre seu legalismo: na realidade não é Deus o centro da sua existência, mas seu eu.

 O risco do “farisaísmo” é a arrogância da “perfeição” e do “legalismo”, distanciando-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso e é incapaz de converter-se a Deus no seu íntimo. A autoglorificação impede sua humanização. Penetra no lugar sagrado sem que o sagrado penetre nele. Petrificou-se em seu legalismo.

 Cego não vê que também é pecador, dependente da misericórdia de Deus. Não reconhece sua realidade pobre e limitada e, em sua oração, está ausente o pedido de perdão. Incapaz de olhar intimamente para si, cobre com um véu os próprios pecados. Incensurável, respeitador e cumpridor de todas as leis, porém cheio de si. A consequência é vida dupla: a fachada externa perfeita que esconde um interior frio e insensível, resistente a perceber a própria fragilidade.

 Na prática, o fariseu quer submeter Deus a si mesmo, cobrando o prêmio pelas boas ações. Agradece porque é sem vícios, não porque se sinta amado por Deus. Seu louvor e agradecimento é apenas um pretexto para louvar a si próprio, inflar o próprio ego; na sua oração Deus não tem o lugar que lhe é devido; a oração passa a ser um monólogo vazio e presunçoso de quem “celebra” seu “eu” e seus méritos diante de Deus.

 O fariseu se auto-elogia, critica e despreza os outros. Ele não descobre nenhum projeto divino sobre si, basta-lhe saber que é melhor que os outros. O agravante é que, quem vive assim não se dá conta do que faz. Isso porque faz de maneira tão dissimulada e sob formas tão “espirituais” e com argumentos tão “religiosos”, que nem ele mesmo é consciente das agressões que comete contra as pessoas. Não se pode discutir com um fariseu; ele tem sempre razão.

 Substitui a Vontade de Deus por leis humanas. Na prática, são indivíduos que demonstram ser ateus, porque, na realidade, o que lhes importa é sua própria honra, e não a honra de Deus. A vaidade faz com que se interessem somente por brilhar diante dos homens. Não tem outro Deus a não ser eles mesmos.O que realmente envenena a vida destas pessoas não é a vaidade ou a soberba. É o ateísmo.

 O “fariseu” que todos hospedamos em nosso interior realiza seu trabalho em silêncio, mas com uma eficácia impressionante: torna o nosso coração impermeável à experiência divina e petrifica nossa compaixão na relação com os outros. Daí o “cuidado com o fermento dos fariseus”...

 A misericórdia é a resposta de Deus ao delírio do ser humano de querer ser perfeito; é a única força capaz de deter o processo de autodivinização, própria do fariseu. O publicano sabia que a única esperança era a misericórdia de Deus.A salvação que desejamos não é fruto exclusivamente de nosso trabalho e penitência, da prática legal e das virtudes. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão.

 Senhor, tende piedade de nós...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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