Reflexões / Matutações

Maldições hereditárias

09/10/2017

“Dia desses” conversando na “mesa do café” alguém comentou que “se macumba pegasse o campeonato baiano terminava empatado”. Acho que não só o campeonato baiano...

 Estava matutando... Isso tema é “complicado”, “dá pano pra maga”; assunto polêmico e gera paixões; a racionalidade é abandonada... É “uma caixa de marimbondo”... Mas será verdade? Existe, de fato, esta possibilidade de eu determinar a vida de alguém através de um sortilégio qualquer, à sua revelia? Tenho ou está a minha disposição tal poder? Os erros e opções de meus antepassados são uma “herança maldita” que tenho que carregar ou pagar até que “alguém” quebre? Minha vida não vai bem por culpa de outros?

 Essas crenças, tais como se apresentam, se fundamentam numa interpretação equivocada da Sagrada Escritura e não encontram referência no Catecismo e nos documentos do Magistério. Em João 9,3, em relação ao cego de nascença Jesus disse aos discípulos: “nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião para manifestar a glória de Deus”. A mesma coisa encontramos em Ezequiel 18 (vale a pena ler), texto que termina com o apelo a conversão! (v.32). Ainda, não existe no NT um processo para quebra de maldições hereditárias. Os apóstolos não passaram por isso, nem os membros da igreja primitiva.

 A Bíblia – sobretudo no Velho Testamento – fala sobre maldições, mas que precisam ser consideradas dentro do contexto em que elas são proferidas e com qual finalidade. No VT, a Lei realiza a bênção e revela a maldição para aqueles que vão contra ela. Ela desvenda o pecado e as proibições; contêm benção e maldições. A maldição é a exclusão da bênção por um ato pessoal e todos aqueles que permanecem em tal desobediência são também amaldiçoados, excluídos. Abençoados os que praticam, amaldiçoados os que desobedecem. Uma atitude pessoal e responsável. Os Profetas usam o “chicote” das maldições, da exclusão da bênção, para quebrar a conversão de Israel, para levá-lo a bênção da Aliança.

 A primeira maldição, exclusão, foi consequência do pecado de Adão. A expulsão do paraíso atingiu todo gênero humano, todos nós fomos “amaldiçoados”, excluídos do convívio de amizade com Deus, postos fora da bênção. O sacrifício de Cristo realizado na cruz uma única vez, foi perfeito e suficiente para quebrar todas as maldições: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se Ele próprio um maldito em nosso favor” – Gl 3,13. Assim não restou maldição a ser quebrada por qualquer expediente racional e lógico que se possa imaginar. O Senhor Jesus Cristo cancelou na cruz todo “o documento que nos era contrário” - Cl 2,14, e nos deu a libertação “do poder das trevas”- Cl 1,13.

 A maior maldição que aflige as pessoas no mundo, é o estar no pecado, fora de Cristo; e a maior das bênçãos, é o estar em Cristo, fora do pecado. “Portanto, se alguém está em Cristo, é criatura nova. O que era antigo passou, agora tudo é novo”. - 2Cor 5,17.

 A palavra “maldição” é usada indevidamente para designar uma série de males, gerando uma confusão em torno da questão. As consequências de mágoas, traumas, de escolhas pessoais, pecados, doenças hereditárias, da força do exemplo dos pais, do ambiente, de provações, tribulações, de hábitos pecaminosos e coisas semelhantes, são confundidas com maldição. Em alguns casos, talvez isto seja até uma forma de se esquivar da responsabilidade pessoal, é cômodo colocar a culpa em alguém ou coisa...

 A vida cristã não nos oferece imunidade contra o sofrimento. Podemos ser acometidos por provações, tribulações e até aflições - Jo 16,33, mas isso não justifica dizer que são maldições feitas por outros ou herdadas. Os filhos de Deus não são malditos, somos bem-aventurados porque Jesus nos salvou e nos libertou.

 “Depois disto, que dizer ainda? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como é que, com Ele não nos daria tudo? Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus é que justifica” – Rm 8,31.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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