Reflexões / Matutações

Ter a coragem de usar a inteligência

02/10/2017

Num texto que comentava a Divina Comédia de Dante Alighieri (+1321), encontrei a motivação do personagem Ulisses para avençar mar adentro, superando o estreito de Gibraltar: “para buscar virtude e conhecimento”. O mesmo autor, mais a frente, faz uma advertência: “A sabedoria é um dom de Deus, mas o desejo de conhecimento pode levar à perdição se não for guiado pela virtude cristã”.

 Fiquei matutando...

 “Ter a coragem de usar a inteligência” – Kant (+1804) e então “nada poderá deter a aspiração do conhecimento da verdade, no desejo de saber que coisa o mundo contenha em seu íntimo” – Goethe (+1832). O resultado do empenho humano “por si mesmo” em “avançar no conhecimento sem ser guiado pela virtude cristã” foi o secularismo e relativização que, no fundo, é a eliminação da verdade enquanto verdade permanente.

 Questionou-se toda ordem, lançou-se ao mar todas as tradições, superam-se criticamente todo o conhecimento. “Tudo foi surgindo; não existe nenhuma realidade eterna, assim como não existe nenhuma verdade absoluta”, concluiu Nietzsche (+1900). O resultado disso, em nossos dias, é a sociedade permissiva, que pisa valores e não considera nada válido a não ser o desejo subjetivo. Isso levou a duvidar da verdade (existe?) tendo como consequência a insegurança e a relativização moral.

 O homem contemporâneo tornou-se escravo das mídias, ensurdecido pelo estrondo da propaganda; escravo da verborragia dos políticos fisiológicos e demagogos que prometem o “céu na terra”; escravo da pseudo-sabedoria da autoajuda alienante; escravo da religião da “prosperidade e cura” e dos “pastores midiáticos” e de seus “shows da fé”. O centro do universo é o “meu umbigo”...

 Assim, a verdade constitui uma das necessidades urgentes do homem contemporâneo, que percebe que só poderá viver a própria existência na verdade e através da verdade. Mas onde encontra-la? As Escrituras professam ser a Igreja a “coluna e o fundamento da verdade” – 1Tm3,15. A Igreja deve comunicar a homem contemporâneo uma verdade existencial, permanente e clara, que é a Fé. Deus é a própria verdade sobre quem repousa a vida. A vida cristã, a vida na fé, revela quanta segurança e sentido brotam do conhecimento desta verdade.

 A fé, como virtude, desperta a segura racionalidade do pensamento que se interroga sobre a maneira de viver responsavelmente a vida; a fé revela a verdade em se decidir pela justiça e o bem comum; a fé estabelece os critérios de verdade para o procedimento moral autêntico.

 Acima de tudo a fé torna possível a resposta existencial diante das crises e da cruz, tornando prova e demonstração do fato que Cristo é a Verdade que, enquanto Vida é o Caminho que conduz a Deus, verdadeiro sentido do homem...

 Somente daí nasce para nós a segurança no meio da desorientação e turbulência da vida moderna...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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