Reflexões / Matutações

Lei e amor, norma e liberdade

18/09/2017

A questão lei e amor, norma e liberdade, tem ocupado um “bom tempo” em minhas matutações...

 S. Paulo na Carta aos Gálatas, provocado pelas discussões a respeito da necessidade da circuncisão para a salvação, denuncia o papel provisório e pedagógico da Lei que a prescrevia e assenta sobre outra lei o viver cristão: sobre a lei da cruz – Gl 6,16, expressão do amor, fruto da liberdade: “Vós fostes chamados à liberdade [...] então, pela “caridade” colocai-vos a serviço uns dos outros, pois toda a lei se realiza numa única palavra: Amarás teu próximo como a ti mesmo” – Gl 5,13.

 Referir-se ao amor, como realização suprema da Lei, é um grande desafio! Impede, por um lado, colocar a lei acima do amor, o que relativiza totalmente a lei em nossa vida: não é lei que rege a vida, quando se vive segundo o amor. Mas também não se pode fazer a lei depender do amor, seria mais do que relativizá-la, praticamente anulá-la, como acontece às vezes com aqueles que se reclamam da palavra célebre de Agostinho: “ama e faze o que queres”. A única solução é dizer que o amor é a lei e que a lei é o amor.

 Objetivamente estamos sujeitos ao Amor, que é muito mais que nossa Lei, é a regra, o parâmetro de nossa vida. Subjetivamente, sujeitos ao amor, somos livres. A liberdade é a marca do amor. Não podemos viver sem lei, na nossa condição de criatura, a caminho da plena liberdade do céu, na plenitude do amor. Mas a lei, a norma, tem uma tarefa pedagógica – Gl 3,24 e não pode ser jamais considerada como um princípio de vida, o que levaria ao infantilismo que, infelizmente, está muitas vezes presente na vida cristã.

 O amor cumpre a lei em plenitude e nos faz viver segundo o Espírito, como Jesus viveu. A lei coíbe o que vai contra a vontade de Deus, o amor nutre o que é agradável a Deus. Daí a oposição de que fala Paulo entre as más inclinações, que atribui à carne, situação do ser humano depois do pecado, e o os frutos do Espírito, atribuindo ao amor gratuito de Deus tudo que há de bom em nós.

 Os frutos da carne, segundo S. Paulo, classificam-se em cinco tipos: luxúria (fornicação, impureza e libertinagem), superstição (idolatria, feitiçaria), inimizade (ódio, rixas, ciúmes e rixas), desencontros (discussões, discórdias, divisões, invejas), desmandos (bebedeiras e orgias) e outras coisas semelhantes. São as tristes realidades gravadas em nossas páginas de vida!

 Os frutos do Espírito se fazem sentir no coração de quem se deixa penetrar pelo Espírito que animou a vida de Jesus, caracterizado pelo amor, acompanhado de alegria e paz; pela qualidade da relação com o próximo, em que se manifestam a longanimidade, a benignidade e a bondade; na tranquilidade interior que se traduz em fidelidade, mansidão, e autodomínio.

 Viver segundo o Espírito é viver segundo o amor! Assim somos livres da lei participando da paixão de Cristo, crucificando todas as nossas más tendências, paixões e desejos contrários ao amor. O dom do Espírito requer um empenho pessoal profundo em viver segundo o Espírito, sem orgulho nem vaidade.

 Dessa forma, a vida cristã, é resultante do amor, em primeiro lugar do amor de Deus por nós correspondido na liberdade, e é expressão do amor que nos leva a caminhar em comunidade. Mas esta vida nova em Cristo exige de nós um proceder coerente com os valores do Evangelho, e esta obediência não é lei, é liberdade.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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