Reflexões / Matutações

A exigência do seguimento de Cristo

11/09/2017

Na mesa o assunto era a exigência do seguimento de Cristo expressa no Evangelho de Mateus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará” – 16,21. A conversa “foi longe”...

 Fiquei matutando: o que significa “renunciar a si mesmo”? E mais, por que se deve negar a si mesmo? Conhecemos a indignação dos filósofos “do bem viver”, defensores daqueles que fazem do “direito de ser feliz” uma desculpa para não se comprometerem com qualquer coisa que implique em “renúncia”. Às vezes, em nossas vidas, tememos deixar de aproveitar alguma coisa. Tememos que, se continuarmos a ser fiéis a Deus, vamos perder algo. Tememos que o “não fazer” o que todos fazem, ou o não ter o que todos têm às vezes nos faz parecer tolos. As nossas desculpas ou racionalizações se referem sempre a essa exigência.

 As murmurações contra os “muitos” compromissos e o desejo de desistência apoiada na ideia que já se fez (faz) muito, a rebeldia contra as lideranças e o projeto da Comunidade, etc. são atitudes, na maioria das vezes, se referem à exigência fundamental do caminho: renunciar a si mesmo.

 Padre Raniero, narra um episódio da Segunda Guerra: “durante a perseguição nazista, muitos trens partiam para os campos de extermínio carregados de judeus. Eram convencidos a embarcar por falsas promessas. Às vezes, em alguma estação, alguém que sabia a verdade gritava para os passageiros: Desçam, fujam. E alguns conseguiam”. O exemplo é duro, mas expressa nossa situação. Temos que observar em qual trem estamos embarcados! (e nós mineiros entendemos de trens). Não falo do trem da vida natural, que vai para a morte. Sobre isso não há dúvida. Nosso eu natural, sendo mortal, está destinado a terminar. Falo do trem da vida que embarcamos por nossa opção, muitas vezes iludidos por propostas ilusórias e enganosas!

 O que o Evangelho nos propõe quando nos exorta a renunciar a nós mesmos é a descer deste trem de ilusão que nos conduz à morte, pois esse é o salário do pecado, para subir no outro que conduz à vida, e a vida plena. Fazer uma baldeação! O trem que conduz à vida é a fé n'Ele, que disse: “Que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”.

 Renunciar a si mesmo não é uma operação autodestrutiva e frustrante, mas o golpe de audácia mais inteligente que podemos realizar! Atitude que exige coragem e convicção de que as palavras que nos chamam para o “outro trem” é a verdade. Jesus não nos pede para renegar o “que somos”, mas “aquilo no que nos convertemos”. Nós somos imagem de Deus, somos, portanto, algo “muito bom”, o que temos que renunciar não é o que Deus fez, mas o que nós fizemos, usando mal nossa liberdade.

 “Renunciar a si mesmo” não é, portanto uma operação para a morte, mas para a vida, para a beleza e para a alegria. Renunciar a si mesmo é seguir a Cristo que renunciou a Si mesmo por nos amar até o fim - Flp 2,6-7.

 A dor e o sofrimento, às vezes até a solidão, de não termos escolhido fazer o que a “cultura secularista” propõe, podem nos tentar a desistência do seguimento. Mas, “nós não somos desertores, para nossa perdição. Perseveramos na fé, para nossa salvação” – Hb 10,39.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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