Reflexões / Matutações

As dificuldades são desafios

31/08/2017

Matutava... É bem verdade que as dificuldades são desafios, que nos convidam a ultrapassar os nossos “limites”, mas também é certo que, com frequência, sejam a comprovação evidente das nossas “limitações”.

Nem todas as dificuldades são facilmente superáveis, mesmo com esforço e boa vontade. É perfeitamente possível que, após termos tentado sinceramente ultrapassar e resistir, soframos uma derrota e nos lamentemos: esforcei-me, procurei encarar as dificuldades “de frente”, mas não estou conseguindo e obtenho somente alguns poucos resultados. Falta-me fôlego.

Pode parecer estranho, mas a experiência das “limitações” e “fracassos” é positiva! Pois o pior dos enganos em que podemos incorrer seria imaginar que a nossa realização espiritual e moral depende exclusivamente “de nossa força e esforço”, resultado do empenho da inteligência e da vontade.

Santo Inácio de Loyola, dizia que há um paradoxo da vida cristã, que pode ser “traduzido” mais ou menos assim: devemos esforçar-nos como se tudo dependesse de nós, e devemos ao mesmo tempo rezar convencidos de que tudo depende de Deus. Cristo, que nos incentiva constantemente a dar o melhor de nós mesmos, diz que o “Reino é dos violentos” – Mt 11,12, no sentido da vontade e esforço, e ao mesmo tempo, também diz, sem contradizer-se: “sem mim, nada podeis fazer” - Jo 15,5.

A prudência da vida cristã consiste em corresponder generosamente à graça de Deus. Deus é o artífice do nosso aperfeiçoamento. Nós somos os seus colaboradores: “ajudantes de Deus” - 1Cor 3,9. Certamente, devemos empregar-nos a fundo e com o mais sincero empenho em progredir “em santidade”. Mas esse esforço pode ser comparado a alguém que, precisando subir a um lugar mais alto, estende a mão a outro que está em posição mais elevada, para que este ajude puxando-o para cima.

Esta comparação, como todas as imagens, é insuficiente para expressar o jogo em que se unem a graça de Deus e os nossos esforços, mas reflete de algum modo a verdade. Tudo o que nós fazemos é levantar a nossa mão, mas quem nos eleva até à meta é a mão – a graça – de Deus, se soubermos agarrar-nos firmemente a ela. Só com a nossa “força”, nada podemos fazer.

Neste sentido, as dificuldades que experimentamos na vida cristã evidenciam que, por nós mesmos, sozinhos, não somos “capazes”. Mas isso não é um convite ao desânimo, não é uma simples verificação da nossa “insuficiência”. Pelo contrário, é esperança: Tudo posso naquele que me dá forças- Flp 4,13.

Costuma-se dizer que a esperança é a virtude do peregrino. O cristão é um peregrino! É significativo dizer esperança e não experiência. Fracasso, insuficiência, falhas: isto é o que a experiência nos mostra a cada passo. A esperança fala outra linguagem: diz-nos que, apesar de todas as nossas limitações e fracassos, podemos contar sempre com a bondade e o poder infinito de Deus, que Ele coloca amorosamente à nossa disposição, desde que o procuremos com confiança: “Aquele que começou em vós tão boa obra há de leva-la a bom termo”- Flp 1,6. Portanto precisamos cooperar com a graça!

Sempre que nos sentirmos encurralados, “limitados” pelo peso das dificuldades – sem desistir do esforço –, como diz a canção: “segura na mão de Deus e vai”! Pois sabemos que “de todas estas coisas saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou... Se Deus é por nós, quem será contra nós”? - Rom 8, 31.37.

 

Assim, as dificuldades, que aparecem na vida com o rosto do inimigo, quando encaradas com fé nos prestam um bom serviço!

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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