Reflexões / Matutações

Odediência

18/08/2017

Estava matutando que a palavra “obediência” não é muito simpática às pessoas de nosso tempo, porque está demasiadamente ligada a uma imagem de dependência servil, de submissão alienante, de ignorância, de direitos usurpados... Muitos se negam a aceitar com boa vontade a sujeição a normas ou a autoridade de alguém...

A situação se agrava quando se trata de religião e comunidade cristã. Às exigências de fé e da vida comunitária parecem ser, ao homem moderno, inimigas da liberdade e da dignidade humana. Muitas vezes os próprios cristãos sentem-se incomodados diante da obediência e é frequentemente menosprezam essa palavra. Todavia, a obediência é um termo que não se pode menosprezar, porque é um tema bíblico fundamental, tanto no Antigo como no Novo Testamento.

O próprio Cristo centraliza sua atuação no mundo como alguém que "humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte numa Cruz" - Flp2,8. Ele mesmo confessa: "desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" - Jo 6,38. E no Sermão da Montanha proclama que “nem todo que diz ‘Senhor’ entrará no Reino dos céus, mas sim quem faz a vontade do Pai que está nos céus” – Mt 7,21

O que vem acontecendo, então, com as nossas consciências? O que vem sucedendo à mentalidade do homem moderno? Temos de deixar de lado a obediência, como alguma coisa antiquada, própria de etapas superadas? Ou questionar-nos um pouco mais, revisando a mentalidade com a qual temos vivido e ensinado tantas vezes a obediência? Se a obediência é um tema imprescindível para um cristão, de que obediência se trata?

Não se podem negar as deformadas atitudes históricas com que, não poucas vezes, viveu-se na Igreja uma mentalidade e uma prática de obediência servil ou alienante, por ser autoritária ou impositiva. Assim se perdeu o caráter ativo, dinâmico, fonte de renovada criatividade, próprio da obediência da fé.

A obediência está ligada a uma aliança de amor. Na iniciativa de um amor infalível, Deus é sempre quem conta com uma livre resposta inserida no próprio plano do coração, para a realização do plano de Deus no mundo.

O próprio Jesus em sua relação com o Pai, não vem ao mundo com um código de instruções embaixo do braço. Em suas orações Jesus vai, dia-a-dia, ao encontro da vontade do Pai, em meio aos acontecimentos que o desafiam. Nessa trama, esse é o seu alimento e sua bebida permanente; e isso o toma o mais livre dos homens diante da pressão condicionante dos legalismos e tradicionalismos paralisadores, que impedem à pessoa conhecer o caminho de sua realização e salvação.
A obediência de Cristo, modelo concreto de obediência, é a que salvou a humanidade no mais livre de seus atos: o caminho da cruz. Assume até o fim a sua condição humana e, dessa maneira, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe apresenta a sublimidade de sua vocação.

Na obediência a Cristo, o homem constrói em sua autenticidade filial e fraterna; a obediência a Cristo engaja os homens na realização de uma história mais digna. O fundamento do ser humano sobre a terra é o próprio Cristo que gratuitamente justifica (faz justo) o homem por sua obediência total ao Pai, jamais realizada plenamente pela humanidade.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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