Reflexões / Matutações

Fé e Política

21/07/2017

Preparando uma aula deparei-me com um texto: “O Estado nasce quando todos os homens de uma determinada sociedade conferem o próprio poder e a própria força a um homem ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir todas as suas vontades a uma só vontade (...) que possa fazer as coisas que dizem respeito à paz e à salvação comum”. O Estado deve ter todos os poderes: “o direito de (...) fazer qualquer coisa que ele queira”. O escrito é da obra “Leviatã” de Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVI, que pensava que o Estado deveria ser todo-poderoso, um verdadeiro deus, essa seria o único modo de salvar os indivíduos do caos, da barbárie, que seus interesses e desejos contraditórios e concorrentes provocariam...

Fiquei matutando... Vivemos um momento em que os regimes totalitários estão em crise e o populismo se mostra incapaz de solucionar o drama humano. Por outro lado, o liberalismo gera insegurança, concorrências e pobreza. Não só os regimes ditatoriais, populistas e liberais vivem uma crise, mas o Estado como instrumento para conduzir a sociedade humana ao seu pleno desenvolvimento e felicidade vive esta crise. O que assistimos? Violência, delações, “petrolões”, desmandos, desmanche das instituições fundamentais da sociedade e do poder, corrupção em todos os níveis...

Infelizmente constatamos que à medida que corre a história humana, e o homem toma a si mesmo como referência única e não se abre para o Transcendente, para Deus, tende a erigir-se em medida de todas as coisas e termina sendo lobo para si mesmo e para os outros, tiranizando-se a si e aos outros. Nenhum Estado, nenhum poder pode se sobrepor à consciência do indivíduo e à sua dignidade fundamental! Mas também nenhuma dignidade humana será respeitada por muito tempo sem o respeito por Deus e pela sua presença no coração humano! O homem sem Deus se devora a si mesmo!

Outro filósofo, Blaise Pascal, século XVII, advertia: “a fé cristã ensina que há um Deus do qual os homens são capazes e que há uma corrupção da natureza que os torna indignos dele. Interessa aos homens conhecer igualmente tanto um como o outro ponto, pois é igualmente danoso para os homens conhecer Deus sem conhecer sua própria miséria e conhecer sua própria miséria sem conhecer o Deus que pode curá-los. Um desses conhecimentos, isolado, gera a soberba dos filósofos, que conheceram Deus, mas não sua própria miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem sua própria miséria sem conhecer o Redentor”.

 Segundo o pensamento de Pascal, a fé em Deus é a melhor garantia de um verdadeiro respeito pelo homem e sua dignidade: somente abrindo-se para Deus em Jesus Cristo o homem pode se conhecer, conhecer o sentido da vida e da morte; fora disso, “nós não conhecemos nada e só vemos obscuridade e confusão”.

 Jesus Cristo que está na glória do Pai, é o Senhor de todo o universo, de toda a criação, da história humana e de nossas vidas. Ele, porque se fez homem, porque entrou no nosso mundo, porque entrou na história humana. Glorificado é, agora, Cabeça e Juiz do nosso mundo e da nossa história. Ele e somente Ele pode ser a resposta para os “leviatãs da vida e da história”...

 

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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