Reflexões / Matutações

Não é fácil!

12/06/2017

“... dia desses, num dedo de prosa”, o “cumpadre” suspirou: “Não é fácil”! Alguém que estava próximo, mas que “não estava no assunto”, nem mesmo sabia do que se tratava, rematou: “Não é fácil mesmo”! Nada ouvira a não ser apenas a última frase: “Não é fácil”! E, no entanto, mesmo sem saber de que estávamos falando, concordou instintivamente.

 Fiquei matutando... De fato, nesta vida nada é fácil. Por isso quando alguém afirma “que é difícil”, ou exclama “não é fácil”, logo encontra quem concorde, independentemente da questão ou do assunto...

 “É difícil” ou “não é fácil”. São expressões iguais a um “trator traçado” que “reboca” qualquer coisa: é difícil viver, ser casado, ser solteiro... não é fácil ser cristão... Nada na vida, ou quase nada, brota como “uma mina d’água na grota”: suave, limpa, grátis... Custa conseguir as coisas e conservá-las, custa não perdê-las e não estragá-las... As dificuldades estão por toda “trilha”, e se brilhassem como os “olhos de gato” a estrada da vida ficaria pontilhada como noite estrelada...

 Como se trata de algo do quotidiano, é bom perguntar: será que a dificuldade é exclusivamente uma circunstância negativa? Não terá nenhum sentido positivo, nenhum valor? Em si mesmas, as dificuldades não são nem boas nem más. O seu valor e sentido dependem da atitude que adotamos diante delas.

 A palavra “dificuldade” aparece com muita “facilidade”, “a par” com a queixa. Falamos das dificuldades lamuriando; e quem nos escuta é solidário na lamentação; porque, provavelmente, também tem motivos para reclamar, porque experimenta na sua própria carne que “a vida não é fácil”.

 Queixamo-nos porque vemos as dificuldades como um mal em si. São coisas indesejadas e aparecem como “pedras de tropeço” que atrapalham ou impedem a realização de algo que desejamos. Para todo bem que procuramos enfrentamos dificuldades. Parece que elas brotam como “erva de passarinho” para atrapalhar... “Logo agora que as coisas iam melhorando”; “isso veio justamente agora”... Assim poderíamos dizer que “dificuldade é aquilo que surge como obstáculo para o nosso bem”.

 Mas, na realidade, qual o nosso verdadeiro bem? O conceito que temos do bem depende do sentido que damos a nossa vida. Para um materialista o bem é aquilo que lhe dá prazer, mesmo que cause um mal ou prejuízo para os outros. Para o egoísta o bem é “ser feliz” a qualquer preço e para alcançá-lo pouco importa que outros sofram...

 Para o cristão, pelo contrário, o bem – a verdadeira realização de si mesmo, o sentido da vida e sua realização – não é a satisfação das paixões egoístas, mas é a virtude. O amadurecimento das virtudes, com a graça de Deus, é o que realiza o autêntico bem do homem e, por isso mesmo, faz nascer nele uma felicidade cada vez mais profunda, cheia de paz e de plenitude interior.

 Quando vemos a vida nesta perspectiva cristã, as dificuldades começam a ser encaradas de uma maneira diferente. Na verdade, não existem dificuldades que, sem a nossa cumplicidade, possam atrapalhar o bem da virtude, isto é, possam impedir a realização da caridade, da bondade, da paciência, da coragem, da fidelidade..., daquilo que nos faz bonse nos dá, por isso mesmo, a alegria.

 A virtude é invencível e se alimenta de tudo, nada a prejudica, se nós a cultivarmos. A mesma dificuldade que arrasa o egoísta fortalece o santo. Dizia Santo Agostinho que “o mesmo fogo faz brilhar o ouro e fumegar a palha”. Para quem crê firmemente em Deus e pauta a sua vida pelo amor a Deus e ao próximo, que busca a vontade de Deus, as situações adversas podem ser uma grande ajuda para o crescimento no amor e confiança na Providência do Deus que nos ama...

 Afinal, “sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”... – Rm 8,28

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

Deixe seu comentário

Últimas


O essencial na vida cristã - 23/10/2017

A maturidade cristã - 20/10/2017

O farisaísmo é “um caminho segundo a carne” - 18/10/2017