Reflexões / Matutações

A palavra "obediência" não é muito “simpática”

02/05/2017

Estava matutando que a palavra "obediência" não é muito “simpática” hoje em dia porque está ligada a uma imagem de dependência servil, de submissão alienante. Não são apenas os jovens e adolescentes que se negam a sujeitarem-se a normas ou a ordens. A situação se agrava no campo da fé.

 À medida que a Fé, a Igreja e a religião são vistos como exigências impositivas, há uma reação contrária quase que espontânea. As exigências do Evangelho aparecem como inimigos da liberdade e da dignidade humana. Algumas vezes os próprios cristãos incomodados diante da obediência, menosprezam ou simplesmente ignoram esta palavra.

 Não se pode negar que às vezes se viveu e, infelizmente, ainda se vive na Igreja, em alguns relacionamentos eclesiais, uma mentalidade e uma prática de obediência servil, alienante, autoritária e impositiva. Assim se perde o caráter ativo, dinâmico, fonte de renovada criatividade, próprio da obediência da fé.

 Então, temos de deixar de lado a obediência, como alguma coisa antiquada, própria de etapas superadas? Ou questionar-nos, renovando nossa “maneira de pensar e julgar” – Rm 12,2?

 Obediência é um termo que não se pode descartar, porque é um tema bíblico fundamental, tanto no Antigo como no Novo Testamento. O próprio Cristo centraliza sua atuação no mundo como alguém que "humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte numa Cruz" – Flp 2,8. Ainda mais. O próprio Cristo declara: "desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" - Jo 6,38.

 Na história da salvação, a obediência sempre esteve ligada ao amor: “se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” – Jo 15,10. Deus conta com uma livre resposta inserida no plano do amor, para a realização do Reino no mundo. O próprio Jesus feito homem, em sua relação com o Pai, não veio ao mundo com um código de leis e preceitos embaixo do braço. Na oração, Jesus vai, dia-a-dia, ao encontro da vontade do Pai, em meio aos acontecimentos que o desafiam. Esse é o seu alimento e isso o toma o mais livre dos homens diante da pressão dos legalismos e tradicionalismos, que impedem à pessoa conhecer o caminho de sua realização e salvação.

 A obediência de Cristo, modelo concreto de obediência, é a que salvou a humanidade no mais livre de seus atos: o caminho da cruz. Assume até o fim a sua condição humana e, dessa maneira, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe apresenta a sublimidade de sua vocação.

 Em Cristo, o homem se constrói em sua autenticidade filial e fraterna; assim, em Cristo, Senhor da historia, a fé, a esperança e a caridade nos convocam para realizar uma história humana mais digna. O alicerce da vida do ser humano sobre a terra é o próprio Cristo que gratuitamente justifica (faz justo) o homem, por sua obediência total ao Pai, jamais realizada plenamente pela humanidade.

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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