Reflexões / Matutações

Todo batizado é carismático

25/04/2017

Numa conversa informal o assunto era “carismas”. Ouvi algumas coisas do tipo: “eu não tenho nenhum carisma”; “não rezo em línguas”; “queria ter o dom de cura como fulano”; “beltrano é que é carismático”... Fiquei matutando...

 Um antigo ensino dizia que “todo batizado é carismático”... A Constituição Lumen Gentium diz: a “fiéis de todas as classes, [o Espírito Santo] ‘distribui individualmente e a cada um, conforme entende’, os seus dons e as graças especiais, que os torna aptos para assumir os diversos cargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja” – LG 12.

 Cardeal Suenens, no Concílio Vaticano II, outubro 1963, sobre a dimensão carismática da Igreja, afirmou: "Deixemos, por um momento, fora de consideração os carismas mais extraordinários e consideremos os dons ordinários do Espírito. Acaso não conhecemos todos, cada um na sua respectiva diocese, leigos — homens e mulheres — que são realmente chamados por Deus? Foram dotados pelo Espírito de diversos dons, no terreno da catequese e da evangelização, na ação católica em todas as suas formas, nas obras sociais e caritativas".

 Insistir exageradamente nos dons extraordinários pode produzir um desvio na compreensão dos mesmos e desconsiderar os carismas mais comuns, “ordinários”, presentes nas comunidades cristãs. Atribuir aos carismas em geral um valor superior ao que lhe é próprio pode subverter sua finalidade de edificar a comunidade cristã.

 Os carismas, como todos os outros dons espirituais, são essencialmente a manifestação multiforme de uma e a mesma realidade: a vida abundante do Espírito. Os dons não são separáveis do Doador. Procurar os dons extraordinários por eles mesmos é lamentavelmente um desvio. Os carismas não são “presentes”, “objetos”, recebidos no “aniversário”, por exemplo. Ou que são dados em razão dos méritos de quem os recebe. Nossa tendência de materializar e de pensar em categorias de "poderes recebidos" pode produzir alguns erros teológicos e pastorais. Os carismas “são manifestações do Espírito Santo, em favor da edificação da Igreja – 1Cor 12,7.Logo, tudo aquilo que efetivamente edifica a Igreja é manifestação do Espírito, é carisma” – D. Albert MonLeon.

 Pe. Haroldo Rahm falava: “se quisermos ter todos os pintinhos de uma galinha, não se deve correr atrás deles. Deve-se apanhar a galinha que os pintinhos todos virão juntos”. É preciso que o homem se deixe "agarrar" por Deus, em vez de correr atrás de seus dons. Os carismas revelam o amor de Deus, pela mediação de homens. Através de homens, este amor atinge outros homens para a edificação da comunidade cristã – Ef 4,7.

 Existe uma prioridade que deve ser mantida: em primeiro lugar vem a conversão pessoal para Cristo e a consequente “reforma” de vida. É a partir daí, desta disposição, que o Espírito vem - At 2,37. A caridade que ele infunde, nos submete totalmente à vontade do Pai, a exemplo de Jesus. Aceitamos o Senhorio de Jesus sobre nossas vidas, no amoroso cumprimento de nossas obrigações cotidianas, no amor a cada homem, por causa de amor de Deus para com ele.

 Viver "no Espírito" significa unir-se na caridade a todos aqueles que Cristo redimiu com o seu sangue. Isto nos leva a amar cada vez mais a Igreja, que ele ama como a sua esposa - Ef 5,23. É nesta a perspectiva que os carismas têm seu valor e validade.

 

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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