Reflexões / Matutações

Matutando a violência...

09/01/2017

A notícia que dominou os jornais esta semana foi a violência nos presídios. A violência se constitui na consolidação do caos, a desconstrução da nossa sociedade. O cenário apresentado pelos meios de comunicação é preocupante. O nosso cotidiano parece estar envolto em um imaginário de violência, o que revela um modelo social perverso. Diariamente somos bombardeados com o problema da violência, em suas múltiplas formas: da violência urbana a barbárie do nosso sistema carcerário. Os meios de comunicação potencializam este fenômeno negativo de tal forma que situações antes consideradas como excepcionais passam a ser vistas como “coisas do dia-a-dia”.

 Fiquei matutando... Até que ponto em nossas vivências também não reproduzimos a violência que tanto repudiamos? Qual é o nosso comportamento em casa, no ambiente de trabalho, com os amigos? Somos pessoas comprometidas com a paz ou nos deixamos conduzir pela arrogância, pelo autoritarismo... A violência é um caminho equivocado que a humanidade trilhou desde o seu início – Gn 4,8 e seu emprego torna eficaz a “lei da bestialidade”.

 Jesus Cristo faz um caminho diverso: “Ofereci o dorso aos que me feriam e a face aos que me arrancavam os fios da barba; não ocultei o rosto às injurias e aos escarros”- Is 50,6. A não-violência de Cristo jamais deve ser entendida como uma submissão cega ao poder, pelo contrário, “ela enseja um inconformismo, uma ‘revolta pacífica’, que implica na mudança de paradigmas na construção da sociedade humana” – Paulo VI. Somos responsáveis na tarefa de fomentar uma reação contrária ao avanço da violência.

 “Prefiro mil vezes ser morto a matar” – Paulo VI. O Evangelho pode e deve ser chamado revolucionário no sentido de que ele exige uma conversão de cada um de nós. Não temos o direito de fechar-nos no egoísmo, devemos abrir-nos ao amor de Deus e ao amor dos homens. As Bem-aventuranças revelam o caminho cristão: nós estamos do lado da “não-violência, que, de nenhum modo, é escolha de fraqueza e passividade” – D. Helder. Não-violência é crer mais na força da verdade, da justiça e do amor, do que na força da mentira, da injustiça e do ódio.

 Diante do quadro social atual, é imperioso o resgate do amor. Mas como falar do amor? Há espaço para o amor no discurso racional da sociedade contemporânea? Quando falo do amor, me refiro ao amor cristão, ou seja, como o de Cristo: concreto, comprometido com o homem, com seus valores e suas transformações. Não a um discurso vazio, alienado, piegas...

 Afinal, o que são as guerras, senão o desamor entre as gentes? Que nome poderia ser dado ao descaso na implantação de políticas sociais? O que vem a ser afinal o problema carcerário? Travestido de superlotação dos presídios, luta entre facções, etc. O que são os tão comuns problemas familiares, senão pura e simplesmente a exclusão do amor, na realidade doméstica?

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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