Reflexões / Matutações

A questão está no “como” nos relacionamos com o Senhor

27/10/2016

Conversando com uma pessoa que “se aposentou” da missão... Reclamava dizendo que consumiu sua vida e pouco teve em troca. Agora cuidava mais de sua vida e participa de algumas atividades pastorais, quando dá tempo e não tem outra coisa a fazer... Este não é um fato raro, infelizmente.

Fiquei matutando... A questão está no “como” nos relacionamos com o Senhor. Nós dizemos com muita ênfase: “somos servos”. Mas em que se firma esta servidão?

Lembrei-me da advertência: “Cuidado com o fermento dos fariseus”! -Mc 8,15. Ou seja, não podemos permitir que a mentalidade farisaica – obrigações e recompensas – penetre nossa relação com Deus substituindo a gratuidade pelas obrigações de lei. O grande perigo é entender nossa missão como um “fardo pesado” e não como uma “liberdade”.

Muitos entendem a “relação servo - Senhor a” partir da perspectiva utilitarista: “eu faço para ele fazer por mim”. Outros entendem como uma relação trabalhista, de direitos e salários ou uma relação de servidão, de obrigações sem sentido, outros, ainda, pensam em termos de mérito e esperam a sua paga.

Muitos acham que Deus lhes deve algo porque O servem. Esperam recompensas! E quando não recebem o que acham que merecem, decepcionam-se, abandonam, desistem, murmuram. Ou, decepcionados, cumprem apenas o mínimo e têm dificuldades de fazer algo mais, mediocridade...

Deus é Amor! – 1Jo 4,8. Não podemos entender nossa relação com Deus como uma relação de mando e opressão, mas uma relação marcada pelo amor e pela doação. Como gratuidade mútua. De um lado eu reconheço que o amor de Deus por mim é gratuito, indo além da justiça e do merecimento. De outro, reconheço a boa obra maravilhosa que Deus faz em mim todos os dias. Esse amor nos dispõe para o serviço e doação, na liberdade. Trata-se de reassumir a condição de servo, sob outra perspectiva, outra mentalidade.

“Já não vos chamo mais servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor” - Jo 15, 15. Não podemos dissociar o senhorio de Jesus da nossa condição de amigos. Isso seria fazer de Jesus um senhor opressor, fazendo de seu serviço, um fardo pesado, insuportável.

Somos seus amigos! É isso que nos deixa à vontade para dizermos “somos servos”. Aliás, somente dessa maneira o senhorio de Cristo não escraviza. Do contrário, ele será opressor como qualquer outro e seu jugo não será suave e seu fardo pesado para carregar.

O reconhecimento do senhorio não pode estar dissociado da experiência da amizade com Jesus. Eu O aceito como Senhor porque sou chamado a sua amizade por um mistério de sua escolha - Jo 15,16. Isso é tão simples! E que diferença faz! Pois é uma contradição que pessoas que conhecem a Jesus e por amor O servem, se sentirem exploradas, fatigadas, sobrecarregadas!

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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