Reflexões / Matutações

A preguiça espiritual

14/10/2016

Alguém me procurou para conversar dizendo que queria continuar o caminho cristão, mas se encontrava “meio desanimado”. Sentia-se pouco entusiasmado com as “coisas de Deus”, achava que as exigências eram “muito grandes”; que a missão era “muito trabalhosa”; queria seguir, mas ao mesmo tempo sentia-se pouco motivado... Assim desfilou uma série de lamúrias quanto à vida da fé... Um discurso que ouço mais do que gostaria de ouvir... Falei da perseverança necessária e a “santa teimosia” de resistir aos “dias maus”. Rezamos juntos, mas, não sei se adiantou a conversa.

 Fiquei matutando...

 Muitos gostariam de seguir a Cristo, mas não estão dispostos a fazer as renúncias necessárias; ou então, mesmo desejando renunciar às paixões desordenadas não escolhem os meios eficazes para consegui-lo. São semelhantes ao doente que deseja a cura, mas recusa remédios por causa dos efeitos colaterais e do mal estar que podem provocar.

 Estas pessoas, por vários motivos, possuem disposições contrárias à vocação divina e não estão efetivamente dispostas à renúncia, exigência fundamental do caminho cristão: quem quiser me seguir, renuncie – Mt 16,24. Por isso tem dificuldades na perseverança e vivem insatisfeitas, relutando sempre quando são convidadas a um passo maior, a ir para “águas mais profundas”.

 A causa é a preguiça espiritual. “o preguiçoso quer muito e nada tem” - Pr 13,4. Aspiram à meta, mas não querem usar os meios necessários para atingi-la. Anseiam pela virtude, enquanto os atrai, mas não a buscam porque exige muito. Desse modo, acabam por abandoná-la. Em síntese, o preguiçoso não tem propriamente vontade, padece daquilo que é chamado de “veleidade”, “vontade imperfeita”, “desejo sem aplicação dos meios”: eu gostaria, mas não quero tanto.

 Muitos chegam a este estado porque desejam o céu sem a prática das virtudes, sem a renúncia das paixões contrárias à santidade, sem a humildade e sem sofrer humilhações... É necessário precaver-se contra a veleidade. A veleidade se diferencia da reta vontade no efeito: a primeira cede diante das dificuldades e leva à preguiça e a preguiça ao desânimo; a segunda insiste e não desiste; se firma nas convicções e as convicções nos fazem progredir na fé.

 A preguiça deve ser combatida com a ascese, a vigilância, o cuidado do coração; combatida pela vida de oração e na escuta diária da Palavra de Deus; combatida pela participação ativa, mesmo quando não estamos “muito dispostos”, na vida da comunidade... Vigiar e não adormecer...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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