Reflexões / Matutações

Deus Escolhe os Piores?

26/09/2016

Numa reunião de avaliação pastoral um dos presentes, referindo-se aos membros de sua equipe, disse que “Deus escolhe os piores e os mais ignorantes” para que esses “mais fracos” realizem sua obra e assim, “sabermos que é Ele, e não nossa capacidade, que realiza”!

Fiquei matutando... É claro que dependemos absolutamente da graça de Deus! Mas existe uma tendência de dizer que “Deus escolhe os piores, os mais desprezíveis, os mais ignorantes, etc.”. Penso que por trás destas afirmações existe uma falsa ideia de quem somos ou uma tentativa de desculpar nossos defeitos e erros ou ainda um conceito incorreto de humildade.

A impressão que Deus escolhe os piores, é só impressão. Seria muito estranho pensar que Aquele que vê o coração escolha justamente os piores. Até porque para falar de “melhor” e “pior” temos que levar em conta os critérios. Qual é? Inteligência, dons, capacidade física, beleza? Deus chamou também os feios!

Piores em sentido ontológico? Não há filhos “piores” para Deus. O que Deus leva em conta ao escolher seus discípulos? Aquilo que realmente somos além das aparências. Deus vêo nosso potencial escondido, vê o coração. O olhar de Deus “não é o dos homens: o homem vê a aparência, o Senhor vê o coração” – 1Sm 16,7

Na raiz de toda vocação há uma afirmação positiva. Deus não nos chama porque “não tem outro, somos nós mesmos”. Não é como o ditado mineiro: “quando não tem tu, vai tu mesmo”. Pelo contrário! Tenho dificuldades em pensar que Nossa Senhora seria “a pior”, que Pedro seria o mais “desclassificado”, que Paulo “o mais incompetente”...

São Francisco foi quem disse: “porque não há outro pior”. Mas esta é uma frase de efeito. Como não ficar constrangido diante da beleza de Deus, como os Apóstolos na transfiguração, Moisés no Sinai... Diante da grandeza de Deus, reconhecemos nossa pequenez, mas isso é “diante de Deus”!

A ideia de que Deus nos escolheu porque não tinha outros melhores é um grande equívoco que se tornou “verdade evangélica”. Deus nos escolheu porque Ele nos conhece - Jr 1,5.

Essa mentalidade equivocada esconde um complexo de inferioridade de que muitos cristãos sofrem e que causa uma timidez insuperável, uma incapacidade de “tomar a peito” a vida e a missão, uma lentidão para decidir e ter iniciativas, um “coitadismo”  revoltante...

“A quilo que no mundo é vil e desprezado, aquilo que não é, Deus o escolheu para reduzir a nada o que é” - 1Cor 1, 27-28. Não existe nesta passagem uma conotação de causalidade: “porque são desprezíveis para o mundo, Deus escolheu”. A palavra deve ser entendida em seu sentido inverso: porque Deus escolheu, isso é desprezado pelo mundo. Este é o sentido: aquele que responde ao chamado de Deus questiona o mundo e seus valores e por isso o mundo o despreza, por isso se torna desprezível.

Uma canção diz: “eu não preciso ser reconhecido por ninguém”...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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