Reflexões / Matutações

A mudança da Postura Conformista

20/09/2016

Na sala de espera do dentista ouvi a conversa de outros pacientes. Falavam alto, não tinha como não escutar... As expressões que surgiam, repetidamente, eram: “hoje é assim mesmo”... “isso é normal”... Interessante é que aquilo que diziam ser “normal”, não era “nada normal” para os padrões cristãos; e aquilo que “hoje é assim mesmo” não deveria “ser assim”! Hoje o que se busca é “o mais confortável”, queremos estar na “zona de conforto”.

A conversa ficou na memória e mais tarde, fiquei matutando... Temos a tendência de estabelecer como “norma” aquilo que não conseguimos mudar porque nossas convicções são insuficientes. Hoje o ambiente social estabelece critérios de “normalidade” que nos engolem! É “normal” “casar e descasar”, “transar com a namorada” antes do casamento, “ser esperto”, “aproveitar senão outro aproveita”... Isto gera um “fatalismo”: “já que não se pode mudar que seja assim”.

Lembrei um companheiro de trilhas, o “Coroné Bicho Véio”, que costumava dizer quando estávamos num “sufoco”: “já que estamos no inferno, vamos abraçar o capeta”!

Um conto de Kafka diz de uma tribo indiana que na primavera, por costume religioso, fazia uma peregrinação a um templo no interior da selva. Este evento coincidia com a época do acasalamento dos tigres que ficavam mais ferozes. Sempre aconteciam ataques e muitos morriam na peregrinação. Como não podiam acabar com os tigres, entenderam que os ataques faziam parte da devoção e esperavam ser mortos pelos tigres, pois isso era “normal”, parte da cerimônia, era o que os “deuses” queriam.

Isto é bem o oposto do Evangelho onde lemos “não vim trazer a paz, mas sim a espada”! – Mt 10,34. O conflito com o “menos”, com a acomodação e a normalidade medíocre é parte significativa da vida cristã. É preciso não se deixar dominar pelos níveis de normalidade que o ambiente pretende impor, caso contrário, facilmente seremos arrastados pela corrente daquilo que é francamente “anormal” que nos é imposto como “normal”.

O mundo parece mergulhar aceleradamente na idolatria do agradável, do fácil e do cômodo. O avanço tecnológico, que nasceu para facilitar a vida, transforma-se em instrumentos da “preguiça”, que impede a busca e o esforço. Tende-se a amar o fácil por ser fácil, o agradável por ser agradável, sem cuidar de discernir se é o certo e o bom.  Ao se deixar dominar por esses critérios ficamos moralmente enfraquecidos e não vemos sentido naquilo que dá sentido à vida, só porque o consideramos difícil.

A mudança desta postura conformista, que para evitar o desconforto da radicalidade do Evangelho, se deixa matar pelos “tigres”, só será possível pelos que estiverem dispostos ao conflito proposto por Aquele que não se conformou ao mundo.

 Matutei... a cruz, a cruz...

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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