Reflexões / Matutações

A Justiça Social

29/08/2016

A esperança cristã tem seu fundamento no encontro com o Deus vivo que vem a nós em Cristo Jesus e nos promete, por seu Espírito, a vida em plenitude em seu Reino. A Igreja nunca descuidou de anunciar esta verdadeira esperança fundamentada nos bens divinos. Mas, não poucas vezes, na prática pastoral, colocou-se tanta coisa antes a acima do verdadeiro fundamento da esperança cristã, que o escondeu aos olhos da maioria dos fiéis. Quase não se fala em vida eterna. Hoje, na Igreja, fala-se de tal modo de direitos humanos, de justiça social, de cuidado com o meio ambiente, de diálogo ecumênico e inter-religioso, de criação de um mundo melhor, de estruturas eclesiais a serviço da transformação da sociedade, etc., que dá a impressão de que a mensagem de Jesus e da Igreja reduz-se apenas a um horizontalismo que, em última análise, coincidiria com a transformação social e política deste mundo, com a implantação da paz e da justiça social entre os homens, numa visão puramente secularista.

Uma pesquisa publicada pela PUC-SP constata que a maioria dos entrevistados, católicos e acatólicos, entende que a principal missão da Igreja é a de construir a paz e a justiça social. Como tantas pessoas puderam chegar a esse mal-entendido? Não quero absolutamente negar o valor das coisas acima apontadas, nem negar que à fé cristã autêntica pertence intrinsecamente o dever de trabalhar, com todas as forças, pelo melhoramento do mundo, pelas relações adequadas entre indivíduos e povos, mesmo sabendo que o sonho de um paraíso terrestre é equivocado. No entanto, não se pode esquecer, em nome do dever de buscar a paz e a justiça social, o fundamento da nossa esperança cristã.

O fundamento é o o Deus vivo, revelado por Cristo, como Aquele capaz de nos dar a esperança da vida eterna. “Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança” (Spe Salvi  3). É esse mesmo fundamento que há de dar vigor ao nosso trabalho, transformando o mundo e a vida a partir de dentro. Não se pode colocá-lo em segundo plano em nossa atividade evangelizadora e pastoral. Não se o relega sem grave erro e mesmo traição ao Evangelho. (Spe Salvi – Bento XVI)

Todos nós desejamos, do fundo do coração, a vida plena. Aproximamo-nos dela quando nos dirigimos para além da temporalidade. Assim, essa vida plena, nós a chamamos de vida eterna, não no sentido de que consista numa ilimitada e chata sucessão de dias – isso seria insuportável –, mas no sentido de que nos faz mergulhar no amor infinito e viver no único instante repleto de satisfação, sem possibilidade de perda.

Somos chamados sair da temporalidade para, de algum modo, abraçar a totalidade do ser e do bem (Spe Salvi 12). Somente Deus, o Deus vivo, pode ser objeto de nossa esperança. Só ele dá a vida eterna, porque só ele a possui por si mesmo. Ele mesmo é a eterna beatitude que desejamos. Nossa salvação é a participação nesta vida plena e alegre que ele nos promete em Jesus Cristo, por seu Espírito Santo. (Meditando sobre a justiça social)

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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