Reflexões / Matutações

Governar Para a Eternidade

26/08/2016

São Tomás conta em um de seus escritos a história de uma velhinha em Siracusa: uma bondosa velhinha de Siracusa rezava diariamente pela conservação da vida do tirano Dioniso. Informado do fato, o tirano mandou chamá-la e a interrogou sobre a razão desse comportamento, já que sabia ser condenado por todos. A boa senhora respondeu: “quando eu era menina, estávamos sujeitos a um grave tirano, cuja morte eu desejava; uma vez morto, sucedeu-lhe um outro ainda mais duro, e eu não via a hora de nos vermos livres dele. E começamos a ter um terceiro governante, mais intolerável, que és tu. Portanto, se fores derrubado, sucederá um pior no teu lugar”.

A história, terrivelmente atual, não precisa de explicações. Nossa história recente mostra que a sucessão do governo anterior, acusado de corrupção, foi substituído por outro, tão ou mais corrupto ainda. Essa sucessão parece justificar a preocupação da velhinha de Siracusa. Nos dias atuais, nossa democracia não parece ser mais ética e proba do que o “regime dos coronéis” ou do “regime militar”. Nossos governantes são substituídos por um processo eleitoral, mas o decepcionante é constatar que o sucessor escolhido muitas vezes é pior do que o antecessor. Talvez o receio da velhinha de Siracusa explique porque o povo reeleja governantes que critica.

A política em São Tomás tem um conteúdo ético. Ensina o Santo que a ética pauta-se na liberdade moral e a política no bem comum, numa participação consciente, que também corresponde a uma postura teológica, sendo subordinada a valores transcendentes e se ordenando ao bem comum. Os bens particulares devem ser ordenados ao bem comum.

O que caracteriza a existência de uma vida política voltada para a realização do bem comum? Para Tomás, a existência de duas ordens de coisas. A primeira, uma estrutura jurídica que assegure a paz e possibilite levar uma vida virtuosa (entendendo aqui os valores cristãos). Isso nos leva a questionar seriamente se o sistema jurídico atual tem possibilitado a sociedade viver uma vida conforme os valores cristãos, se a impunidade não tem o efeito de aumentar a violência?

É obrigação dos governantes instaurar uma vida boa, conservá-la e melhorá-la. O bem comum terreno assegurado pelo governante está ordenado à bem-aventurança eterna. O fim último da vida em comunidade é chegar à vida eterna. Em outras palavras, o Estado não é o fim último. É apenas um meio, ainda que imprescindível, para alcançar a felicidade eterna. Esta concepção política deixa entrever que na essência não há estado totalmente laico, já que seu fim último ultrapassa a secularidade se realizando efetivamente na eternidade.

Não há dúvidas de que a vida social precisa de uma autoridade sem o que se dispersaria na anarquia. A questão coloca pelo Santo se refere à escolha de nossos dirigentes. Este domingo é um dia onde a consciência cristã será expressa pelo voto consciente “expressão da fé”, como afirma Bento XVI. Finalmente, é preciso ter certeza de que o governo seguinte às eleições será melhor do que anterior; que a Câmara resultante do processo eleitoral, seja mais operante, ativa na fiscalização e defesa dos interesses públicos. E isso nos lembra da história narrada no início: a velhinha de Siracusa. 

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

Deixe seu comentário

Últimas


O conteúdo do Natal nos Padres da Igreja - 14/12/2017

Perdemos o senso do Natal! - 13/12/2017

Dia de Nossa Senhora de Guadalupe - 12/12/2017