Reflexões / Matutações

O Evangelho e a Política

12/08/2016

São Domingos 121: “PORQUE OS CRISTÃOS NÃO SOUBERAM encontrar na fé a força necessária para penetrar os critérios e as decisões dos setores responsáveis pela liderança ideológica e pela organização da convivência social. Em povos de arraigada fé cristã, impuseram-se estruturas geradoras de injustiça”.

Esta afirmação é incômoda para nós cristãos. A finalidade da evangelização ultrapassa o simples anúncio. O Evangelho deve ser o fundamento daquela sociedade que o papa João Paulo II chamou de civilização do amor.

Em Mateus 22,34-40 Jesus aponta as duas leis fundamentais, das quais as demais leis deveriam se originar: o amor a Deus e o amor ao próximo. É preciso compreender que é do primeiro mandamento que deriva o segundo, que lhe é “semelhante”. Portanto o primado do direito – logicamente das leis – está em amar a Deus e esse amor a Deus se manifesta e se expressa no amor ao próximo. E destes mandamentos deveriam proceder todas as leis. Este é o pensamento de Santo Agostinho, em Cidade de Deus, onde fundamenta a ética cristã da política na caridade, que não deseja nada para si, mas que deseja o bem do outro – 1ª Coríntios 13. Deste pressuposto ele estabelece que a ética política seja definida por dois princípios: o útil e o gozo.

O princípio da utilidade diz que é ético tudo aquilo que é para o bem comum, sendo a política um instrumento para esse bem comum. O princípio do gozo diz que não é ético, é imoral, tudo aquilo que deveria ser para o bem comum e é usado para benefício próprio. Isto é a corrupção. Neste sentido Agostinho entende a política como um instrumento para o bem do próximo (que é o caminho para Deus) e não como gozo pessoal.

Assim ética pública está fundada neste princípio cristão: a caridade. Todo uso do poder público para gozo e benefício próprio é imoral, é corrupção, mesmo que tenha como justificativa algum benefício secundário à população. Não se pode olhar para os direitos de uma classe em detrimento de uma população; não se pode buscar os projetos de realização pessoal abandonando o bem comum; não se pode usar os poucos recursos financeiros públicos para enriquecimento pessoal diante da pobreza e necessidade de muitos.

A corrupção é definida a partir deste princípio é crime na lei e para nós cristãos se torna delito de pecado, pois viola um mandamento que o próprio Jesus colocou como fundamento do procedimento humano. A não obediência a esses dois mandamentos dá origem ao roubo da coisa pública, desvios de verbas, mensalões e mensalinhos... Procedimentos que não condizem com a moral social, muito menos com a moral cristã. Moral cristã que muitos que exercem o poder declaram possuir as vésperas de um novo pleito.

Não podemos fugir do Evangelho, que nos apresenta os critérios éticos e morais para a vida em sociedade e, portanto torna-se a referência para as leis e legisladores que são responsáveis pelo estabelecimento da ordem e da justiça entre nós.

O Evangelho interpela nossa vida e nos torna conscientes de nosso papel no mundo. Neste sentido, o voto não é somente o exercício da cidadania, mas também e, sobretudo, um ato de fé cristã comprometida com o “amor a Deus e ao próximo”. Pense em quem votar nestas eleições!

Autor: Tácito Coutinho - Tatá - Moderador do Conselho da Comunidade Javé Nissi

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